Essa talvez seja a pergunta mais importante que alguém possa responder.
Muitas pessoas acreditam que Deus aceitará aqueles que procuram viver corretamente. Outras depositam sua esperança nas boas obras, na dedicação à religião, na sinceridade ou no esforço para obedecer aos mandamentos. Afinal, se alguém procura fazer o bem e evitar o mal, não seria natural esperar que Deus o recebesse?
À primeira vista, esse raciocínio parece fazer sentido. O problema é que ele parte de uma comparação completamente equivocada.
Quase sempre nos comparamos com outras pessoas. Olhamos para aqueles que consideramos piores do que nós e concluímos que, se somos relativamente bons, certamente Deus também nos considerará bons. Mas será que esse é o critério pelo qual Deus julga o homem?
Antes de responder se somos santos o suficiente para sermos salvos, precisamos compreender quem é aquele diante de quem todos haveremos de comparecer.
A Bíblia revela um Deus perfeito em tudo o que faz e em tudo o que é. Ele é infinitamente santo, perfeitamente justo e plenamente amoroso. Esses atributos não competem entre si nem entram em conflito. Deus não é menos santo porque ama, nem menos amoroso porque é justo. Tudo o que Deus é, Ele o é perfeitamente.
"Santo, santo, santo é o SENHOR dos Exércitos; toda a terra está cheia da sua glória." (Isaías 6:3)
"Justo é o SENHOR em todos os seus caminhos e benigno em todas as suas obras." (Salmos 145:17)
Muitas pessoas imaginam que, por Deus ser amor, Ele simplesmente ignora o pecado ou diminui Suas exigências para aceitar o pecador. As Escrituras revelam exatamente o contrário. O amor de Deus jamais compromete Sua santidade. Sua santidade jamais enfraquece Sua justiça. E Sua justiça jamais diminui Seu amor.
Se Deus é perfeitamente santo, qualquer pecado é uma ofensa contra Sua santidade. E, porque é perfeitamente justo, nenhuma culpa pode ser simplesmente ignorada.
Seu caráter não muda. Sua perfeição não diminui. Sua Lei expressa exatamente quem Ele é. Por isso, Deus não adapta Seu padrão às limitações humanas, nem reduz Suas exigências para acomodar pecadores. O padrão permanece perfeito porque o próprio Deus é perfeito.
É justamente nesse ponto que começamos a perceber a dimensão do problema.
Se a salvação depende da aceitação de um Deus perfeitamente santo, então não basta saber o que pensamos sobre nós mesmos. Também não basta saber o que outras pessoas pensam a nosso respeito. O que realmente importa é aquilo que Deus exige.
É somente quando conhecemos esse padrão que podemos descobrir, com segurança, se somos ou não santos o suficiente para sermos salvos.
É comum imaginarmos que Deus avalia as pessoas da mesma forma que nós. Comparando pessoas boas com pessoas más, concluímos que, se alguém tiver uma vida melhor do que a maioria, certamente será aceito por Deus. Mas esse nunca foi o padrão estabelecido nas Escrituras.
Deus não mede o homem comparando-o com outros homens. O padrão pelo qual todos serão julgados é o Seu próprio caráter. A Lei revela quem Deus é e, por isso, expressa Sua santidade e Sua justiça. Ela exige do homem uma obediência compatível com a perfeição do próprio Deus.
"Sede vós perfeitos como perfeito é o vosso Pai celeste." (Mateus 5:48)
As palavras de Jesus deixam claro que o padrão de Deus nunca foi inferior à perfeição.
Esse padrão nunca foi de sinceridade, esforço, boas intenções ou dedicação. Deus não exige que o homem seja apenas melhor do que os outros. Ele exige que seja perfeitamente santo, perfeitamente justo e perfeitamente obediente, porque esse é o padrão da Sua própria Lei.
Por isso, a Lei não trabalha com médias, aproximações ou desempenho suficiente. Ela não admite uma obediência quase perfeita, nem considera aceitável uma vida moralmente superior à dos demais. Diante da santidade de Deus, somente a perfeição satisfaz as exigências da Sua justiça.
Tiago mostra que esse padrão não admite exceções. Quem falha em apenas um mandamento torna-se culpado de transgredir toda a Lei.
"Qualquer que guarda toda a lei, mas tropeça em um só ponto, se torna culpado de todos." (Tiago 2:10)
É como uma corrente formada por vários elos. Não importa quantos permaneçam intactos; se apenas um deles se rompe, toda a corrente deixa de cumprir sua função. Da mesma forma, quem pretende ser justificado pela Lei precisa apresentar uma vida inteira de perfeita obediência, sem um único pecado em pensamentos, palavras, atitudes ou intenções.
Esse é o padrão estabelecido por Deus. A Lei não exige uma obediência parcial, mas uma perfeição absoluta, constante e completa. Não basta começar bem, nem obedecer na maior parte do tempo. Uma única falha basta para tornar o homem culpado diante de Deus.
Quanto mais conhecemos a Lei, mais ela revela duas verdades ao mesmo tempo: quem Deus é e quem nós somos. Ela revela a perfeição do Senhor e expõe a completa incapacidade do homem de alcançar, por si mesmo, o padrão que Deus exige.
Diante desse padrão, toda confiança na própria justiça começa a desmoronar. Se a Lei exige perfeição absoluta e uma única transgressão torna o homem culpado, então a esperança de ser aceito por Deus pelas próprias obras desaparece completamente. A realidade revelada pela Lei é muito mais grave do que imaginávamos.
Depois de compreender o padrão da Lei, muitos ainda imaginam que conseguem obedecê-la. Afinal, nunca assassinaram, nunca roubaram ou nunca cometeram crimes considerados graves. Comparando sua vida com a de outras pessoas, acreditam possuir uma conduta suficientemente boa para serem aceitos por Deus.
Foi exatamente essa falsa segurança que Jesus confrontou no Sermão do Monte. Os escribas e fariseus acreditavam que cumpriam a Lei porque observavam seus aspectos exteriores. Para eles, bastava evitar determinadas práticas para se considerarem justos diante de Deus.
Jesus, porém, revelou que eles nunca haviam compreendido o verdadeiro alcance da Lei.
"Ouvistes que foi dito aos antigos: Não matarás... Eu, porém, vos digo que todo aquele que se irar contra seu irmão estará sujeito a julgamento." (Mateus 5:21-22)
Pouco depois, Ele amplia esse mesmo princípio:
"Qualquer que olhar para uma mulher com intenção impura, no coração, já adulterou com ela." (Mateus 5:28)
Jesus não tornou a Lei mais rigorosa do que ela era. Ele revelou o que ela sempre exigiu. A proibição nunca se limitou ao assassinato, mas alcançava o ódio. Nunca se restringiu ao adultério, mas também condenava a cobiça. O pecado não começa nas ações; ele nasce no coração.
Assim, cumprir a Lei nunca significou apenas praticar boas obras ou evitar determinados pecados. A Lei exige um coração perfeitamente puro, um amor perfeito por Deus e uma obediência perfeita em todos os momentos da vida.
À medida que esse padrão é revelado, toda confiança na justiça própria começa a desaparecer. A questão já não é apenas o que o homem faz, mas aquilo que ele é. O problema não está simplesmente em suas obras, mas na própria fonte de onde elas procedem.
É como a torre de Babel. Durante algum tempo, o homem acredita que sua própria construção é alta o suficiente para alcançar os céus. Confia em suas obras, em sua moralidade e em seus méritos, imaginando que, tijolo após tijolo, conseguirá aproximar-se de Deus. Mas, quando a luz da Lei revela a perfeição do padrão divino, a ilusão desaparece. A torre da justiça própria desaba diante de seus olhos, e torna-se evidente o abismo que separa a santidade de Deus da condição do homem.
Quanto mais a Lei revela a profundidade da obediência que Deus exige, mais evidente se torna que o problema do homem não está apenas em seu comportamento, mas em sua própria natureza. O fracasso diante da Lei não é consequência de alguns erros isolados, mas da completa incapacidade do próprio homem de produzir a perfeição que Deus requer.
Depois de compreender o verdadeiro alcance da Lei, fica evidente que o problema não está nas exigências de Deus, mas na condição do próprio homem. A Lei é santa, justa e boa; ela revela o caráter de Deus. O que impede sua perfeita obediência não é um defeito na Lei, mas a corrupção do coração humano.
As Escrituras ensinam que toda a humanidade caiu em Adão e herdou uma natureza corrompida pelo pecado. Por isso, não nos tornamos pecadores porque pecamos; pecamos porque já nascemos pecadores. O pecado não é apenas uma sequência de atos errados, mas a manifestação de uma natureza que, desde o nascimento, está inclinada a viver em rebelião contra Deus.
"Eu nasci na iniquidade, e em pecado me concebeu minha mãe." (Salmos 51:5)
Essa é uma das verdades mais difíceis de aceitar. Naturalmente, pensamos que somos pessoas boas que, de vez em quando, cometem alguns erros. A Bíblia apresenta um diagnóstico muito mais profundo. O problema do homem não é simplesmente que ele está em pecado, mas que ele é pecador. Seus pecados não produzem essa condição; eles apenas revelam aquilo que sua natureza já é.
Pense em um urubu.
Ninguém precisa ensiná-lo a gostar de carniça. Ele não desenvolve esse gosto ao longo da vida nem o adquire por influência de outros. Ele a procura porque essa é sua natureza. Da mesma forma, o ser humano não aprende a inclinar-se para o pecado; ele já nasce com um coração corrompido. É justamente dessa natureza que procedem seus pensamentos, desejos, palavras e ações.
Paulo resume essa condição ao afirmar que toda a humanidade está igualmente debaixo do pecado.
"Não há justo, nem um sequer." (Romanos 3:10)
Por isso, o homem não regenerado não precisa apenas de mais informação, mais disciplina ou mais esforço. Nenhuma dessas coisas pode transformar sua natureza. Assim como um urubu jamais deixará de ser urubu apenas porque foi colocado em um jardim florido, o pecador jamais produzirá, por si mesmo, a santidade perfeita que a Lei exige. O problema não é a falta de oportunidade para obedecer, mas a ausência de uma natureza capaz de fazê-lo.
É exatamente por isso que nenhum descendente de Adão consegue obedecer perfeitamente à Lei. O problema não está no padrão estabelecido por Deus, mas na incapacidade do homem de corresponder a esse padrão. Quanto mais a Lei revela a santidade divina, mais ela expõe a profunda miséria da condição humana.
Nesse ponto, torna-se evidente que a Lei não foi dada para tornar o homem justo, pois ela encontra um pecador incapaz de cumprir aquilo que exige. A perfeição da Lei permanece inalterada, enquanto a incapacidade do homem é completamente exposta. É então que começamos a perceber que Deus nunca deu a Sua Lei sem um propósito. Ela revela muito mais do que mandamentos; ela revela a verdadeira condição do homem diante de Deus.
Depois de compreender que nenhum ser humano consegue obedecer perfeitamente à Lei, essa conclusão parece inevitável. Se Deus sabia que nenhum descendente de Adão seria capaz de satisfazer plenamente Suas exigências, por que estabeleceu uma Lei com um padrão tão elevado?
À primeira vista, isso pode parecer uma contradição. Mas não há contradição alguma em Deus. A Lei nunca foi dada como um caminho para que pecadores conquistassem sua própria salvação. Desde o princípio, seu propósito foi revelar a perfeição de Deus e expor a completa incapacidade do homem de produzir a justiça que Ele exige.
Em primeiro lugar, a Lei revela quem Deus é. Ela expressa Sua santidade, Sua justiça e Sua perfeição. Cada mandamento reflete o caráter daquele que o estabeleceu, mostrando que Deus jamais reduz Seu padrão para acomodar a condição humana.
Em segundo lugar, a Lei revela quem nós somos. Ela funciona como um espelho: não remove a sujeira; apenas a torna visível. Da mesma forma, a Lei não elimina o pecado; ela o revela. Ao confrontar o homem com a santidade de Deus, expõe a profundidade de sua corrupção e destrói toda ilusão de justiça própria.
"Pela lei vem o pleno conhecimento do pecado." (Romanos 3:20)
Por essa razão, a Lei fecha toda boca diante de Deus. Ela demonstra que ninguém pode apresentar méritos suficientes para ser justificado por suas próprias obras. Em vez de alimentar a autoconfiança, ela conduz o pecador ao reconhecimento de sua completa falência espiritual.
Quando a Lei cumpre esse propósito, toda esperança na justiça própria chega ao fim. O homem já não encontra em si mesmo qualquer fundamento para apresentar-se diante de Deus. Seu pecado é exposto, sua culpa é revelada e sua completa incapacidade torna-se evidente.
É justamente nesse ponto que a Lei alcança um de seus maiores propósitos: ela cala toda pretensão humana, desmonta toda confiança nos próprios méritos e deixa o pecador sem qualquer recurso em si mesmo.
Depois de tudo o que vimos até aqui, uma verdade torna-se inescapável. Se Deus exige uma justiça perfeita, se a Lei revela um padrão que nenhum pecador consegue alcançar e se a própria natureza humana é incapaz de produzi-lo, então a esperança da salvação definitivamente não pode estar no homem.
A Lei elimina, uma a uma, todas as falsas esperanças. Ela não deixa espaço para a confiança nas boas obras, na religiosidade, na sinceridade, no esforço pessoal ou em qualquer mérito humano. Tudo aquilo em que o homem naturalmente confia é exposto como insuficiente diante da santidade de Deus.
Ao final desse caminho, resta apenas uma certeza: se existir esperança para o pecador, ela terá de vir inteiramente de fora dele. Porque, se não houver alguém capaz de cumprir perfeitamente tudo aquilo que a Lei exige, toda a humanidade permanece debaixo da justa condenação de Deus.
Depois de tudo o que vimos, resta apenas uma resposta possível: somente Jesus Cristo.
Onde toda a humanidade fracassou, Ele permaneceu fiel.
Onde todos pecaram, Ele permaneceu santo.
Onde todos desobedeceram, Ele obedeceu perfeitamente ao Pai.
Aquilo que era impossível para todos os descendentes de Adão tornou-se realidade em um único homem: o Filho eterno de Deus feito carne.
Durante toda a Sua vida, Jesus cumpriu integralmente aquilo que Deus exige do homem.
Nunca houve pecado em Seus pensamentos, palavras, atitudes ou intenções.
Nunca houve desobediência, impureza ou rebelião.
Em cada momento de Sua vida, Cristo amou o Pai de todo o Seu coração, de toda a Sua alma, de todo o Seu entendimento e de todas as Suas forças.
Sua obediência foi completa, perfeita e constante, exatamente como a Lei sempre exigiu.
"Não penseis que vim revogar a Lei ou os Profetas; não vim para revogar, vim para cumprir." (Mateus 5:17)
Cristo não veio diminuir o padrão da Lei, mas cumpri-lo em sua totalidade. Aquilo que nenhum descendente de Adão conseguiu realizar, Ele realizou perfeitamente. Em toda a Sua existência terrena, não houve uma única falha, um único pensamento impuro, uma única palavra pecaminosa ou uma única atitude contrária à vontade do Pai.
As Escrituras testemunham repetidamente essa perfeição.
"O qual não cometeu pecado, nem dolo algum se achou em sua boca." (1 Pedro 2:22)
"Porque não temos sumo sacerdote que não possa compadecer-se das nossas fraquezas; antes, foi ele tentado em todas as coisas, à nossa semelhança, mas sem pecado." (Hebreus 4:15)
"Porque convinha que tivéssemos um sumo sacerdote como este, santo, inculpável, sem mácula, separado dos pecadores." (Hebreus 7:26)
Jesus é o único homem que viveu exatamente como Deus sempre exigiu que o homem vivesse. Desde Seu nascimento até Seu último suspiro, Sua vida foi uma expressão perfeita de amor, santidade e obediência ao Pai.
Essa obediência não aconteceu apenas para nos servir de exemplo. Ela era indispensável para que as exigências da Lei fossem plenamente satisfeitas. Desde a queda de Adão, Deus requer uma justiça perfeita para que alguém permaneça em Sua presença. Todos os homens falharam. Todos quebraram a Lei. Todos se tornaram culpados diante do justo Juiz.
Cristo, porém, veio como o último Adão (1 Coríntios 15:45). Onde o primeiro homem desobedeceu, trazendo condenação sobre toda a humanidade, Cristo permaneceu perfeitamente obediente, estabelecendo a justiça que Seu povo jamais poderia produzir.
"Porque, como, pela desobediência de um só homem, muitos se tornaram pecadores, assim também, por meio da obediência de um só, muitos se tornarão justos." (Romanos 5:19)
Somente nEle encontramos um homem que satisfaz plenamente todas as exigências da Lei de Deus. Sua vida inteira foi uma demonstração perfeita da justiça que Deus requer. Cada pensamento, cada palavra, cada atitude e cada decisão glorificaram perfeitamente o Pai. Somente Cristo realizou aquilo que nenhum ser humano jamais poderia realizar.
Mas Sua perfeita obediência, por si só, ainda não resolve o maior problema do pecador. A Lei não exige apenas uma vida perfeitamente justa; ela também pronuncia condenação contra todo aquele que a transgride. E todos os descendentes de Adão já se encontram debaixo dessa condenação.
Assim, embora a justiça perfeita finalmente tenha aparecido em um homem, a culpa dos pecadores continua existindo. A Lei que exige perfeita obediência é a mesma Lei que exige a justa punição do pecado. A justiça de Deus permanece plenamente satisfeita apenas quando Sua sentença também é cumprida.
Até aqui vimos que Jesus viveu a única vida perfeitamente justa da história. Ele cumpriu integralmente tudo aquilo que a Lei exigia do homem.
Contudo, ainda permanecia um problema. A Lei não exigia apenas uma vida de perfeita obediência; ela também determinava que toda transgressão recebesse a sua justa penalidade. A culpa do pecador não podia simplesmente ser ignorada, porque Deus é perfeitamente santo e justo. Sua justiça exige que todo pecado seja plenamente castigado.
Era exatamente esse o grande dilema. Como Deus poderia salvar pecadores sem comprometer Sua própria justiça? Como o Justo poderia declarar justos aqueles que haviam violado Sua santa Lei?
A resposta está na cruz de Cristo.
Ali aconteceu a maior demonstração da justiça, do amor e da graça de Deus em toda a história. O Filho eterno de Deus tomou voluntariamente o lugar do Seu povo. O inocente foi tratado como culpado para que os culpados fossem tratados como justos. Aquele que jamais pecou suportou a condenação que nós merecíamos, satisfazendo plenamente todas as exigências da justiça divina.
"Aquele que não conheceu pecado, ele o fez pecado por nós; para que, nele, fôssemos feitos justiça de Deus." (2 Coríntios 5:21)
Séculos antes, Isaías já havia anunciado essa obra extraordinária:
"Certamente, ele tomou sobre si as nossas enfermidades e as nossas dores levou sobre si... Ele foi traspassado pelas nossas transgressões e moído pelas nossas iniquidades; o castigo que nos traz a paz estava sobre ele, e pelas suas pisaduras fomos sarados." (Isaías 53:4-5)
Cristo não morreu apenas para demonstrar amor ou inspirar bons exemplos. Ele morreu como nosso substituto. A ira santa que deveria cair sobre pecadores culpados caiu sobre Ele. A pena que a Lei pronunciava contra os transgressores foi executada no único que jamais havia transgredido. Na cruz, Deus não deixou de exercer Sua justiça; Ele a satisfez completamente.
Por isso, a salvação não repousa na capacidade do homem de satisfazer a justiça de Deus, mas na obra perfeita de Cristo, que a satisfez em seu lugar. Todo aquele que confia unicamente em Cristo sabe que seu perdão não depende de seus méritos, de suas obras ou de sua perseverança pessoal, mas da obra consumada do Salvador. A certeza da salvação nasce da suficiência de Cristo, e não da suficiência do homem.
As próprias palavras de Jesus revelam a extensão dessa obra:
"Todo aquele que o Pai me dá, esse virá a mim; e o que vem a mim, de modo nenhum o lançarei fora." (João 6:37)
Logo em seguida, Ele explica o propósito de Sua missão:
"Porque eu desci do céu, não para fazer a minha própria vontade, e sim a vontade daquele que me enviou. E a vontade de quem me enviou é esta: que nenhum eu perca de todos os que me deu; pelo contrário, eu o ressuscitarei no último dia." (João 6:38-39)
Jesus não afirma que veio apenas tornar a salvação possível. Também não diz que tentará salvar aqueles que o Pai Lhe deu. Sua declaração é muito mais forte: nenhum deles será perdido. A cruz não criou apenas uma oportunidade de salvação; ela garantiu a salvação daqueles por quem Cristo entregou Sua vida.
Essa mesma verdade aparece quando Jesus se apresenta como o Bom Pastor:
"Eu sou o bom pastor. O bom pastor dá a vida pelas ovelhas." (João 10:11)
Mais adiante, Ele acrescenta:
"As minhas ovelhas ouvem a minha voz; eu as conheço, e elas me seguem. Eu lhes dou a vida eterna; jamais perecerão, e ninguém as arrebatará da minha mão. Aquilo que meu Pai me deu é maior do que tudo; e da mão do Pai ninguém pode arrebatar." (João 10:27-29)
Perceba a unidade da obra de Cristo. Ele dá Sua vida pelas ovelhas, chama essas mesmas ovelhas, concede-lhes a vida eterna e garante que jamais perecerão. A morte do Bom Pastor e a preservação das ovelhas fazem parte da mesma obra redentora. Nenhum daqueles por quem Cristo morreu será perdido, porque ninguém pode frustrar aquilo que Ele consumou.
Na noite que antecedeu Sua crucificação, Jesus reafirma essa verdade em Sua oração sacerdotal:
"É por eles que eu rogo; não rogo pelo mundo, mas por aqueles que me deste, porque são teus." (João 17:9)
E continua:
"Não peço que os tires do mundo, e sim que os guardes do mal." (João 17:15)
Perceba a perfeita harmonia do plano da redenção. O Pai entrega um povo ao Filho. O Filho vive em perfeita obediência por esse povo. O Filho morre em lugar desse povo. O Filho intercede por esse povo. O Filho preserva esse povo. E o Filho garante que nenhum deles será perdido.
A obra da salvação possui um único Autor e um único Salvador. Do começo ao fim, ela pertence inteiramente ao Senhor.
Por isso, pouco antes de entregar Seu espírito, Jesus declarou:
"Está consumado." (João 19:30)
Essa não foi a declaração de alguém derrotado, mas o anúncio da maior vitória da história. Nada ficou pendente. Nada precisa ser acrescentado. Tudo o que a santidade de Deus exigia foi perfeitamente cumprido. Tudo o que a justiça de Deus requeria foi plenamente satisfeito. Tudo o que era necessário para reconciliar pecadores com Deus foi realizado, de uma vez por todas, por Jesus Cristo.
A cruz, portanto, não anuncia uma possibilidade de salvação, mas a consumação da obra redentora. Cristo não tornou a redenção apenas possível; Ele a conquistou. Não ofereceu apenas uma oportunidade de reconciliação; satisfez plenamente a justiça de Deus em favor do Seu povo. Sua obra é perfeita, suficiente e definitiva. Nada pode ser acrescentado ao que Ele consumou, porque nada ficou por fazer.
Se tudo o que era necessário para salvar foi plenamente realizado por Cristo, resta compreender como essa obra perfeita alcança pecadores que, por sua própria condição, permanecem espiritualmente mortos. A redenção foi consumada na cruz, mas os benefícios dessa obra precisam ser aplicados àqueles por quem Cristo morreu. É justamente nesse ponto que a grandeza da graça de Deus se manifesta de forma ainda mais extraordinária.
A pergunta que encerramos na seção anterior nos conduz ao centro da doutrina da salvação.
Antes de respondê-la, porém, é necessário desfazer um equívoco muito comum. Muitas pessoas confundem o novo nascimento com as mudanças que ele produz. Dizem: "Antes eu praticava determinados pecados; hoje não pratico mais." Ou: "Antes eu vivia de determinada maneira; agora mudei. Portanto, nasci de novo."
Sem dúvida, quem nasce de novo experimenta uma transformação visível. No entanto, essas mudanças não são o novo nascimento; elas são seus frutos. Primeiro Deus opera, de forma invisível, no coração do pecador; depois essa nova vida se manifesta em uma vida transformada.
Foi o próprio Jesus quem ensinou:
"Assim, pois, pelos seus frutos os conhecereis." (Mateus 7:20)
Os frutos não produzem a árvore; apenas revelam que ela já existe. Da mesma forma, uma vida transformada não produz o novo nascimento; ela apenas evidencia que Deus já realizou Sua obra no coração.
Foi exatamente por isso que Jesus disse a Nicodemos:
"Em verdade, em verdade te digo que, se alguém não nascer de novo, não pode ver o reino de Deus." (João 3:3)
Jesus não disse que o homem precisava apenas melhorar sua conduta. Ele afirmou que era necessário nascer de novo. Ninguém produz o próprio nascimento. Assim como ninguém escolheu nascer fisicamente, ninguém pode produzir o seu nascimento espiritual.
Mais adiante, Jesus acrescenta:
"O vento sopra onde quer, ouves a sua voz, mas não sabes de onde vem, nem para onde vai; assim é todo o que é nascido do Espírito." (João 3:8)
O novo nascimento é uma obra soberana do Espírito Santo.
Séculos antes, Deus já havia prometido:
"Dar-vos-ei coração novo e porei dentro de vós espírito novo; tirarei de vós o coração de pedra e vos darei coração de carne. Porei dentro de vós o meu Espírito e farei que andeis nos meus estatutos, guardeis os meus juízos e os observeis." (Ezequiel 36:26-27)
Observe que Deus não promete apenas perdoar pecados. Ele promete transformar o coração do pecador. O coração de pedra é retirado, e um coração de carne é concedido. A disposição interior muda completamente.
Antes, o homem amava o pecado e vivia para satisfazer seus próprios desejos. Deus ocupava um lugar secundário ou era completamente ignorado. Mas, quando o Espírito Santo regenera o pecador, acontece uma profunda mudança interior. O centro dos seus afetos é transformado.
Lembre-se da ilustração do urubu apresentada anteriormente. Enquanto sua natureza permanece a mesma, a carniça lhe parece um banquete. Mas, se sua natureza fosse transformada, aquilo que antes lhe dava prazer agora lhe causaria repulsa. É isso que Deus faz no novo nascimento. Ele não apenas muda o comportamento do pecador; Ele muda o seu coração. O pecado não deixa de existir, mas deixa de ocupar o lugar de maior prazer. Cristo passa a ocupar esse lugar.
Essa mudança interior produz uma nova maneira de enxergar o pecado. Aquilo que antes era amado agora causa tristeza, porque o regenerado percebe que pecou contra um Deus santo e amoroso. Esse reconhecimento o leva a abandonar seus antigos caminhos. A Bíblia chama essa mudança de arrependimento.
Ao mesmo tempo, ele deixa de viver voltado para si mesmo e volta-se para Deus. Essa mudança de direção é chamada de conversão. Pela primeira vez, seguir a Cristo deixa de parecer um peso e passa a ser o desejo do seu coração.
Perceba a ordem dessa obra. Primeiro Deus concede um novo coração. Depois transforma os afetos. Dessa nova disposição brotam o arrependimento e a conversão. Tudo isso é fruto da regeneração, e não sua causa.
Somente então as palavras de Jesus fazem pleno sentido:
"As minhas ovelhas ouvem a minha voz; eu as conheço, e elas me seguem." (João 10:27)
As ovelhas não se tornam ovelhas porque ouviram a voz do Pastor. Elas ouvem porque receberam um novo coração e pertencem ao Pastor.
Assim, a obra consumada por Cristo na cruz não é recebida por pessoas espiritualmente mortas que, por si mesmas, decidiram crer. Ela é recebida por pecadores que primeiro foram vivificados pela ação soberana do Espírito Santo. Somente um coração regenerado pode reconhecer a beleza de Cristo, arrepender-se do pecado e seguir o Bom Pastor.
Tudo está preparado para o encontro entre o Salvador e aquele que foi vivificado. A obra foi consumada por Cristo, o coração foi transformado pelo Espírito, e resta compreender como o pecador regenerado se apropria, pessoalmente, de tudo aquilo que Cristo conquistou na cruz. É justamente nesse ponto que encontramos o instrumento estabelecido por Deus para receber essa salvação: a fé.
Depois de compreender que Cristo cumpriu perfeitamente a Lei, satisfez completamente a justiça de Deus e que o Espírito Santo dá um novo coração ao pecador, resta compreender o papel da fé.
Antes de tudo, precisamos entender o que é fé. Em seu sentido mais simples, fé é confiança.
Todos nós exercemos fé diariamente. Confiamos que uma cadeira vai nos sustentar, que uma ponte não vai desabar ou que um médico sabe o tratamento adequado. Em outras palavras, fé é depositar confiança em alguém ou em alguma coisa.
A pergunta, portanto, não é se alguém tem fé, mas em quem ou em que essa confiança está depositada.
A Bíblia ensina que a fé salvadora não completa a obra de Cristo nem acrescenta qualquer mérito à salvação. Ela é o instrumento pelo qual recebemos tudo aquilo que Cristo já conquistou.
Durante toda a Sua vida, Jesus obedeceu perfeitamente à Lei em nosso lugar. Na cruz, sofreu o castigo que nossos pecados mereciam e realizou tudo o que era necessário para a nossa salvação. Pela fé, recebemos os benefícios dessa obra consumada: o perdão dos pecados e a justiça de Cristo que nos é atribuída.
"Concluímos, pois, que o homem é justificado pela fé, independentemente das obras da lei." (Romanos 3:28)
A fé não salva; Cristo salva. A fé apenas nos une a Ele.
Pense em alguém com muita sede. Um canudo, sozinho, não mata a sede. Se estiver em um copo vazio, nada acontece. Se estiver em um copo com veneno, leva à morte. Se estiver em um copo com água potável, a sede será saciada. O canudo apenas conduz aquilo que está no copo.
Assim também acontece com a fé. Ela, por si só, não salva. O que salva é o objeto da fé. Se a confiança estiver nas riquezas, nas boas obras, em líderes religiosos, nos sacramentos ou em qualquer outra coisa, ela jamais poderá salvar. Somente a fé que descansa exclusivamente em Cristo recebe os benefícios da obra que Ele consumou.
Por isso, toda pessoa deposita sua confiança em alguma coisa. Uns confiam no dinheiro. Outros, na própria bondade. Outros, em líderes religiosos, sacramentos, santos ou boas obras. Há ainda quem diga confiar em Cristo, mas também coloque sua esperança em outras coisas para garantir a salvação.
O problema nunca está na intensidade da fé, mas no objeto da confiança.
A fé salvadora é diferente. Ela é um dom de Deus e tem um único objeto: Jesus Cristo e Sua obra perfeita. Ela abandona toda confiança em si mesma e descansa unicamente nEle.
Foi isso que Jesus ensinou ao falar dos dois fundamentos. O homem prudente constrói sua casa sobre a Rocha, e não sobre a Rocha e a areia ao mesmo tempo.
"Todo aquele, pois, que ouve estas minhas palavras e as pratica será comparado a um homem prudente que edificou a sua casa sobre a rocha." (Mateus 7:24)
Essa é a fé concedida ao pecador regenerado.
"Porque pela graça sois salvos, mediante a fé; e isto não vem de vós; é dom de Deus; não de obras, para que ninguém se glorie." (Efésios 2:8-9)
É Deus quem chama, regenera, concede um novo coração, produz arrependimento e concede a fé. Então, por meio da fé, o pecador é unido a Cristo e descansa exclusivamente na obra perfeita que Ele realizou.
"Aos que predestinou, a esses também chamou; e aos que chamou, a esses também justificou; e aos que justificou, a esses também glorificou." (Romanos 8:30)
Deus não trata o homem como um espectador passivo. Ao transformar seu coração, faz com que ele realmente se arrependa, creia e siga a Cristo.
"Porque Deus é quem efetua em vós tanto o querer como o realizar, segundo a sua boa vontade." (Filipenses 2:13)
Do começo ao fim, a salvação pertence ao Senhor. Não existe mérito humano, porque toda a obra é de Deus. O Pai planejou a salvação, o Filho a consumou e o Espírito Santo a aplicou ao coração do pecador. Ao homem resta apenas descansar, pela fé, na obra perfeita de Cristo.
Mas a graça de Deus não termina quando o pecador crê. A mesma graça que concede um novo coração e produz a fé continua operando ao longo de toda a vida do cristão. Ela passa a moldar seus pensamentos, desejos, palavras e atitudes, tornando-o cada vez mais semelhante a Cristo. A salvação já foi plenamente conquistada; agora seus efeitos começam a ser vistos na vida daquele que foi salvo.
Ao compreender que a salvação pertence inteiramente a Deus, muitos fazem uma pergunta sincera: "Se já fui salvo pela graça, por que viver em santidade?"
Outros seguem pelo caminho oposto. Sem confiar plenamente na suficiência da obra de Cristo, procuram conquistar o favor de Deus por meio de regras e boas obras, como se a cruz precisasse ser completada pelo esforço humano.
As duas conclusões estão erradas:
A primeira usa a graça como desculpa para o pecado.
A segunda transforma a obediência em uma tentativa de merecer a salvação. Ambas revelam uma compreensão equivocada do Evangelho.
A obra da graça não termina quando o pecador é unido a Cristo pela fé. A mesma graça que chama, regenera, concede a fé e justifica também transforma a vida do cristão. A isso chamamos de santificação.
A santificação é a obra contínua do Espírito Santo pela qual Deus nos torna, pouco a pouco, mais semelhantes a Cristo. Ele transforma nossos pensamentos, nossos desejos, nossas atitudes e nossa maneira de viver.
Isso não significa que o cristão deixe de lutar contra o pecado. Enquanto viver neste mundo, continuará enfrentando tentações e ainda pecará. A diferença é que o pecado já não reina sobre sua vida. Agora existe um novo coração, que ama a Deus, odeia o pecado e deseja agradá-Lo.
Mas não é apenas o comportamento que muda. A motivação também muda. Antes, o homem buscava conquistar o favor de Deus, aliviar sua culpa ou merecer a salvação por meio das obras. Agora, obedece porque já foi salvo. Não procura comprar o amor de Deus; responde com gratidão ao amor que já recebeu em Cristo. A obediência deixa de ser uma tentativa de conquistar aceitação e passa a ser uma expressão de amor, gratidão e adoração.
As boas obras, portanto, não são a causa da salvação nem a preservam. Elas são o fruto inevitável de uma vida transformada pela graça.
Jesus ensinou:
"Assim, toda árvore boa produz bons frutos; porém a árvore má produz frutos maus." (Mateus 7:17)
Tiago também escreveu:
"Assim também a fé, se não tiver obras, por si só está morta." (Tiago 2:17)
Tiago não ensina que as obras salvam. Ele ensina que a fé verdadeira sempre produz frutos. Uma árvore produz bons frutos porque primeiro recebeu uma nova natureza. Da mesma forma, as boas obras não produzem a salvação; elas revelam que Deus já operou no coração.
Por isso, tanto o legalismo quanto o antinomismo distorcem o Evangelho. O legalismo faz das obras a causa da salvação. O antinomismo afirma que alguém pode pertencer a Cristo sem experimentar transformação. As Escrituras rejeitam ambos os erros. Somos salvos somente pela graça, mediante a fé, por causa de Cristo. E essa mesma graça continua operando em nós, produzindo uma vida de crescente santidade.
Essa transformação, porém, não será perfeita nesta vida. Ainda lutaremos contra o pecado e sofreremos os efeitos da queda. Haverá vitórias e tropeços, mas Deus não abandonará a obra que iniciou em Seus filhos. Aquele que regenera também santifica, preserva e conduz Seu povo até o fim.
Um dia, porém, essa obra será completada. Quando Cristo voltar, seremos glorificados. O pecado será definitivamente removido. Não haverá mais tentações, corrupção ou qualquer inclinação para o mal. Amaremos a Deus de maneira perfeita e O obedeceremos sem qualquer resistência.
Assim, da eleição à glorificação, toda a salvação pertence ao Senhor. Ele a planejou desde a eternidade, Cristo a realizou na cruz, o Espírito Santo a aplica ao coração do pecador e Deus a consumará na glorificação. Do começo ao fim, a salvação é obra do Senhor.
Soli Deo Gloria.
Depois de percorrer todo esse caminho, chegamos ao momento pelo qual todo este estudo foi construído:
A Lei revelou o padrão de Deus.
O pecado revelou nossa incapacidade.
Cristo revelou a perfeita justiça que Deus exige.
A cruz revelou como essa justiça foi plenamente satisfeita.
O Espírito Santo revelou como essa obra é aplicada ao pecador.
Agora, todas essas verdades convergem para uma única conclusão, que será apresentada na próxima seção.
Chegamos, enfim, à pergunta que deu início a toda esta caminhada.
Ao longo deste estudo, Deus foi retirando, uma a uma, todas as falsas esperanças de salvação. Vimos que Sua Lei exige perfeição absoluta. Descobrimos que nenhum descendente de Adão consegue produzir essa justiça. Contemplamos Cristo vivendo a vida que jamais conseguiríamos viver e morrendo a morte que merecíamos. Vimos que o Espírito Santo concede um novo coração ao pecador, produz arrependimento e fé e o une ao Salvador. Também aprendemos que a santidade do cristão é fruto da salvação, nunca sua causa.
Agora todas essas verdades convergem para uma única resposta.
Quão santo alguém precisa ser para ser salvo?
Perfeitamente santo.
Esse sempre foi o padrão de Deus.
"Pois qualquer que guarda toda a lei, mas tropeça em um só ponto, se torna culpado de todos." (Tiago 2:10)
Se a salvação dependesse da nossa própria santidade, todos estaríamos eternamente perdidos. Nenhum homem, por mais religioso, sincero ou disciplinado que fosse, conseguiria apresentar diante de Deus a perfeição que Sua Lei exige.
Mas Deus fez exatamente aquilo que o homem jamais poderia fazer.
A santidade perfeita que Deus exige é a mesma santidade que Ele providenciou em Seu Filho.
Jesus viveu em perfeita obediência durante toda a Sua vida. Na cruz, suportou a condenação que nós merecíamos. E, por meio da fé, Deus nos une a Cristo e nos atribui a perfeita justiça de Seu Filho.
"Aquele que não conheceu pecado, ele o fez pecado por nós; para que, nele, fôssemos feitos justiça de Deus." (2 Coríntios 5:21)
Por isso, quando Deus olha para aqueles que pertencem a Cristo, Ele não vê pecadores tentando alcançar um padrão impossível. Ele vê a perfeita justiça de Seu Filho, atribuída a todos os que estão unidos a Cristo pela fé.
É por essa razão que nossa aceitação diante de Deus não depende do quanto avançamos na santificação. Ela depende exclusivamente da perfeita obediência de Cristo. Nossa santificação cresce ao longo da vida, mas nossa justificação é completa desde o primeiro instante, porque está fundamentada na justiça perfeita de Jesus.
Isso não torna a santidade desnecessária. Pelo contrário. Quem foi regenerado ama a santidade, luta contra o pecado e deseja agradar a Deus. Mas essa obediência jamais é o fundamento de sua salvação. Ela é a evidência de que Deus já realizou Sua obra.
Assim, a resposta para a pergunta que deu origem a este estudo é clara:
Você precisa ser perfeitamente santo para ser salvo.
A boa notícia do Evangelho é que essa santidade perfeita não precisa ser produzida por você. Ela já foi produzida por Cristo e é concedida gratuitamente a todo aquele que está unido a Ele pela fé.
Essa é a diferença entre o Evangelho e toda religião baseada em méritos. A religião diz: "Torne-se suficientemente santo para que Deus o aceite." O Evangelho anuncia: "Cristo foi perfeitamente santo em lugar do Seu povo; por isso, Deus aceita todos os que estão unidos a Ele."
Quando compreendemos essa verdade, também percebemos que nem toda mensagem que fala de Deus, de Jesus ou da salvação anuncia, de fato, o verdadeiro Evangelho. Desde os dias dos apóstolos, a igreja luta contra ensinos que parecem verdadeiros à primeira vista, mas que alteram o coração da mensagem bíblica.
Diante disso, torna-se indispensável saber como distinguir a verdade do erro à luz das Escrituras.
Ao longo deste estudo, as verdades apresentadas pelas Escrituras nos conduziram a uma conclusão inevitável: a salvação pertence inteiramente ao Senhor.
Essas mesmas verdades também nos fornecem um critério seguro para examinar qualquer ensino que nos seja apresentado como cristão. Afinal, nem toda mensagem que utiliza a Bíblia, fala de Jesus ou menciona a salvação anuncia, de fato, o verdadeiro Evangelho.
As Escrituras nos alertam repetidamente que a igreja visível seria alvo de falsos mestres.
O perigo, porém, não está naqueles que negam abertamente a Cristo. Poucos seriam enganados por alguém que aparecesse vestido de demônio, segurando um tridente e dizendo: "Eu vim para afastar você de Jesus."
O verdadeiro perigo está naquele que abre a Bíblia, fala de Deus, menciona Jesus, cita versículos e parece anunciar o Evangelho, mas acrescenta, de forma quase imperceptível, algo à obra perfeita de Cristo.
É como uma nota falsificada. A nota falsa mais perigosa não é a que parece um pedaço de papel com "R$ 100" escrito à mão. Quase ninguém seria enganado por uma falsificação tão grosseira. O verdadeiro perigo está na nota que se parece quase perfeitamente com a verdadeira, contendo apenas diferenças sutis, imperceptíveis para a maioria das pessoas. Somente quem conhece bem a nota verdadeira consegue identificar a falsificação.
Da mesma forma, as heresias mais perigosas não são as que negam completamente o Evangelho, mas as que se parecem com ele enquanto acrescentam, de forma quase imperceptível, algo que Deus nunca exigiu.
E, assim como existe um padrão seguro para identificar uma nota falsa, Deus nos deu um padrão infalível para discernir a verdade: as Escrituras Sagradas. Somente elas podem revelar quando um ensino preserva o verdadeiro Evangelho ou quando anuncia outro evangelho.
Foi exatamente isso que Jesus advertiu:
"Acautelai-vos dos falsos profetas, que se vos apresentam disfarçados em ovelhas, mas por dentro são lobos roubadores." (Mateus 7:15)
O apóstolo Paulo acrescenta:
"Porque os tais são falsos apóstolos, obreiros fraudulentos, transformando-se em apóstolos de Cristo. E não é de admirar, porque o próprio Satanás se transforma em anjo de luz." (2 Coríntios 11:13-14)
E Pedro confirma:
"Assim como, no meio do povo, surgiram falsos profetas, assim também haverá entre vós falsos mestres, os quais introduzirão, dissimuladamente, heresias destruidoras..." (2 Pedro 2:1)
Perceba que a ênfase dessas advertências não está apenas na existência de falsos mestres, mas na forma como eles atuam. Eles se apresentam como ovelhas, como ministros de Cristo e introduzem suas heresias dissimuladamente. O maior perigo nunca esteve nas heresias mais evidentes, mas nas mais sutis.
Por isso, não devemos confiar em nossos sentimentos, impressões, sonhos ou experiências para discernir a verdade. As Escrituras dizem:
"Enganoso é o coração, mais do que todas as coisas, e desesperadamente corrupto; quem o conhecerá?" (Jeremias 17:9)
Nosso coração não é o padrão da verdade. A Palavra de Deus é.
Por essa razão, toda doutrina (inclusive tudo o que foi apresentado neste estudo) deve ser examinada à luz das Escrituras.
Os cristãos de Bereia foram elogiados exatamente por isso:
"Ora, estes de Bereia eram mais nobres que os de Tessalônica; pois receberam a palavra com toda a avidez, examinando as Escrituras todos os dias para ver se as coisas eram, de fato, assim." (Atos 17:11)
Ao fazer esse exame, precisamos lembrar de um princípio fundamental: a Bíblia nunca se contradiz. Nunca.
Portanto, nenhum texto isolado pode anular aquilo que Deus revelou claramente em muitas outras passagens.
Por exemplo, se alguém utilizar um versículo isolado para afirmar que somos salvos pelas obras, essa interpretação jamais pode estar correta, porque as Escrituras afirmam repetidamente:
"Porque pela graça sois salvos, mediante a fé; e isto não vem de vós; é dom de Deus; não de obras, para que ninguém se glorie." (Efésios 2:8-9)
"Concluímos, pois, que o homem é justificado pela fé, independentemente das obras da lei." (Romanos 3:28)
Da mesma forma, se alguém utilizar uma passagem isolada para ensinar que aqueles que Cristo salvou podem finalmente se perder, essa interpretação também precisa ser examinada à luz de tudo o que a Bíblia ensina.
O próprio Jesus declarou:
"Porque eu desci do céu, não para fazer a minha própria vontade, e sim a vontade daquele que me enviou. E a vontade de quem me enviou é esta: que nenhum eu perca de todos os que me deu; pelo contrário, eu o ressuscitarei no último dia." (João 6:38-39)
E ainda:
"Eu lhes dou a vida eterna; jamais perecerão, e ninguém as arrebatará da minha mão." (João 10:28)
As passagens mais difíceis nunca devem controlar a interpretação das mais claras. Pelo contrário, os textos claros iluminam aqueles que exigem maior cuidado.
Esse princípio nos conduz ao teste mais importante de todos.
Uma distorção do Evangelho raramente começa negando a cruz. Na maioria das vezes, ela surge quando se afirma, de maneira aberta ou sutil, que a obra de Cristo, embora indispensável, ainda precisa ser complementada pelo homem. Aos poucos, a confiança deixa de repousar exclusivamente no Salvador e passa a depender, ainda que parcialmente, do mérito, da obediência, dos sacramentos, de líderes religiosos, da decisão humana ou de qualquer outra exigência acrescentada ao Evangelho.
É justamente nesse ponto que o Evangelho é pervertido. Se o homem precisa acrescentar qualquer mérito para ser aceito por Deus, a cruz deixa de ser plenamente suficiente. Se a justificação depende, ainda que em parte, do desempenho humano, a perfeita justiça de Cristo já não basta. E, se Cristo apenas tornou a salvação possível, cabendo ao homem torná-la efetiva, então a cruz deixa de ser apresentada como uma obra plenamente suficiente e consumada.
"Se é pela graça, já não é pelas obras; do contrário, a graça já não é graça." (Romanos 11:6)
O mesmo princípio é reafirmado na carta aos Hebreus. Depois de mostrar que Cristo ofereceu um único e perfeito sacrifício pelos pecados, o autor conclui:
"Ora, onde há remissão destes, já não há oferta pelo pecado." (Hebreus 10:18)
Se a obra de Cristo removeu definitivamente a culpa do pecado, nada mais pode ser acrescentado para completar aquilo que Ele já consumou. Qualquer tentativa de acrescentar mérito, desempenho, penitências, sacramentos ou qualquer outra exigência humana como fundamento da justificação nega, na prática, a suficiência da cruz.
Esse é o critério que deve orientar todo discernimento doutrinário. Toda doutrina precisa ser examinada à luz das Escrituras: ela conduz toda a confiança para Cristo ou reparte essa confiança entre Cristo e o homem? Ela preserva a suficiência da cruz ou acrescenta uma condição que Deus nunca estabeleceu?
Sempre que a causa da salvação é dividida entre Deus e o homem, a glória da cruz é inevitavelmente diminuída. Quanto mais mérito se atribui ao homem, menos suficiente Cristo parece ser. E quanto menos suficiente Cristo parece ser, menos gloriosa se torna a graça de Deus.
Por isso, toda doutrina que acrescenta qualquer requisito humano à obra suficiente de Cristo como fundamento da justificação corrompe o próprio Evangelho. Já não estamos diante de uma simples divergência sobre questões secundárias, mas de outro evangelho.
Isso, porém, não significa que alguém deva primeiro descobrir se é eleito para então confiar em Cristo. O convite do Evangelho é dirigido a todos: arrependam-se e creiam. Todo aquele que se arrepende de seus pecados, reconhece que nada merece além da justa condenação e deposita sua confiança exclusivamente em Cristo demonstra a obra da graça de Deus em seu coração. Quem vem a Cristo jamais será rejeitado, porque a salvação pertence ao Senhor do começo ao fim.
A certeza da salvação não nasce de uma tentativa de descobrir os decretos eternos de Deus, mas da obra que o próprio Deus realiza em nós. O Espírito Santo testifica com o nosso espírito que somos filhos de Deus (Romanos 8:16), produz arrependimento, fé e uma crescente confiança em Cristo. Por isso, aquele que reconhece que merece apenas a condenação, mas descansa exclusivamente na obra perfeita de Cristo, pode ter a firme convicção de que pertence a Cristo e foi alcançado pela graça de Deus. Somente os eleitos são conduzidos pelo Espírito Santo a abandonar toda confiança em si mesmos e descansar unicamente na suficiência da cruz. E todos aqueles que Deus elegeu serão, no tempo determinado por Ele, conduzidos pelo Espírito a essa mesma fé salvadora.
Foi exatamente assim que Paulo tratou qualquer ensino que alterasse o Evangelho:
"Admira-me que estejais passando tão depressa daquele que vos chamou na graça de Cristo para outro evangelho, o qual não é outro; senão que há alguns que vos perturbam e querem perverter o evangelho de Cristo. Mas, ainda que nós ou mesmo um anjo vindo do céu vos pregue evangelho que vá além do que vos temos pregado, seja anátema." (Gálatas 1:6-8)
A raiz desse problema sempre é a mesma. A obra de Cristo deixa de ser apresentada como plenamente suficiente em si mesma e passa a depender, de alguma forma, da contribuição do homem. O mérito humano pode aparecer de maneira evidente ou muito sutil, mas o resultado é sempre o mesmo: a confiança deixa de repousar exclusivamente em Cristo.
Toda heresia que corrompe a doutrina da salvação possui essa mesma raiz: deixa de apresentar Cristo como o Salvador plenamente suficiente e passa a tratar Sua obra como dependente, de alguma forma, da contribuição humana. Em vez de anunciar uma obra consumada, anuncia uma obra que ainda depende do homem. Sempre que algo é acrescentado à cruz, a cruz deixa de ser suficiente. E, se a cruz deixa de ser suficiente, já não estamos diante do Evangelho anunciado pelos apóstolos.
É importante fazer uma distinção. As Escrituras nos ordenam julgar doutrinas, mas não nos autorizam a pronunciar o destino eterno das pessoas.
"O homem vê o exterior, porém o Senhor, o coração." (1 Samuel 16:7)
Nosso compromisso é avaliar todo ensino à luz da Palavra de Deus. Quando uma doutrina esvazia a suficiência da cruz ao acrescentar qualquer mérito humano à obra de Cristo, devemos rejeitá-la como heresia e chamar, com amor, todos os que a ensinam ou nela confiam ao arrependimento e ao descanso exclusivo em Cristo.
As Escrituras também advertem que somente o Evangelho de Cristo salva. Por isso, esse chamado não é uma questão secundária, mas uma questão de vida eterna.
Este estudo teve um único propósito: conduzir toda a confiança do pecador para Cristo e oferecer um critério bíblico para discernir o verdadeiro Evangelho.
Sempre que você ouvir qualquer ensino sobre a salvação, examine-o à luz das Escrituras e faça esta pergunta: esse ensino preserva a suficiência da obra de Cristo ou acrescenta algo que Deus nunca exigiu?
Se toda a glória pertence a Cristo, se toda a justiça necessária foi plenamente realizada por Ele e se nada pode ser acrescentado à Sua obra, então esse ensino preserva o verdadeiro Evangelho. Se, porém, acrescenta qualquer mérito, desempenho ou condição humana como fundamento ou causa da justificação, já não anuncia o Evangelho da graça, mas outro evangelho.
"A salvação pertence ao Senhor." (Salmos 3:8)
SOLI DEO GLORIA.
Autor: Wagner Costa