Romanos 7 é um dos capítulos mais debatidos de toda a carta aos Romanos. A principal questão é simples: quando Paulo descreve sua luta contra o pecado, ele está falando da experiência de um homem ainda não convertido ou da experiência de um cristão regenerado?
A resposta a essa pergunta influencia diretamente a maneira como compreendemos a conversão, a santificação e a própria vida cristã. Afinal, se Paulo está descrevendo um crente, então a presença de uma intensa luta contra o pecado não é evidência da ausência da graça, mas uma das evidências de sua presença.
A compreensão mais coerente do texto é que Paulo está descrevendo a experiência de um cristão regenerado, e não apenas a condição do homem natural. O homem não regenerado pode sentir culpa, medo das consequências do pecado ou até desejar uma vida moralmente melhor, mas não possui um coração transformado que ama a lei de Deus e sofre por ofendê-lo.
Paulo afirma:
"Porque, no tocante ao homem interior, tenho prazer na lei de Deus."
(Romanos 7:22)
Essa expressão, "homem interior", é usada pelo próprio Paulo para se referir à nova vida produzida pelo Espírito. Além disso, Paulo não diz que deseja praticar o mal. Pelo contrário, ele afirma que odeia o pecado e deseja fazer o bem. Existe um conflito real dentro dele. De um lado, a nova natureza criada por Deus. De outro, a carne que ainda permanece até a glorificação.
O texto não apresenta uma luta entre duas pessoas, mas entre dois princípios atuando no mesmo indivíduo regenerado. A regeneração não elimina instantaneamente a presença do pecado, mas muda completamente a relação do crente com ele.
Uma ilustração simples ajuda a compreender isso:
Imagine um homem que durante anos amou determinado vício. Ele organizava sua vida em torno dele, defendia seus hábitos e não via problema em praticá-los. Então, algo muda profundamente dentro dele. Agora ele passa a odiar aquilo que antes amava. A tentação ainda existe, mas sua relação com ela não é mais a mesma.
É exatamente isso que acontece na regeneração. O pecado continua presente, mas já não reina da mesma forma. O coração foi transformado. Os afetos foram transformados. O relacionamento com Deus foi transformado.
Por isso, Romanos 7 não descreve um homem afastado de Deus, mas alguém que já foi alcançado pela graça e agora sofre justamente porque ama aquilo que antes desprezava e odeia aquilo que antes amava.
Essa mudança de afeições é uma das evidências mais claras da regeneração. O homem natural pode até mudar de comportamento por interesse, medo ou conveniência, mas somente a graça de Deus pode fazê-lo amar aquilo que antes odiava e odiar aquilo que antes amava.
Essa conclusão estabelece a base para todo o restante do capítulo. Uma vez compreendido que Paulo está descrevendo um homem regenerado, podemos avançar para uma de suas declarações mais importantes. Nela, Paulo nos ajuda a entender a origem dos desejos santos presentes na vida do cristão e a relação entre a nova natureza e a graça de Deus operando em seu povo.
É exatamente nesse contexto que devemos entender uma das declarações mais conhecidas de Paulo.
"Porque eu sei que em mim, isto é, na minha carne, não habita bem nenhum, pois o querer o bem está em mim; não, porém, o efetuá-lo."
(Romanos 7:18)
Observe que Paulo não diz simplesmente: "em mim não habita bem nenhum". Ele faz questão de especificar: "isto é, na minha carne". Essa observação é fundamental, porque revela que Paulo está distinguindo aquilo que ainda permanece de sua velha natureza daquilo que Deus já realizou em seu interior.
Há nele algo que já não pertence à carne. Há um homem interior que ama a lei de Deus, deseja obedecê-la e luta contra o pecado. Essa linguagem não descreve um homem morto espiritualmente, mas alguém que já foi vivificado pela graça.
Por isso, quando Paulo afirma que "o querer o bem está em mim", ele não está exaltando alguma capacidade natural do homem. Pelo contrário, está reconhecendo uma obra que Deus já realizou em seu coração.
As Escrituras ensinam que, por natureza, estávamos espiritualmente mortos:
"Ele vos deu vida, estando vós mortos nos vossos delitos e pecados."
(Efésios 2:1)
E também:
"Não há quem entenda, não há quem busque a Deus."
(Romanos 3:11)
O morto espiritual não deseja a Deus, não busca a Deus e não se sujeita à sua vontade. Portanto, o simples fato de Paulo querer agradar a Deus já demonstra a presença da graça regeneradora atuando nele.
O próprio contexto de Romanos confirma isso:
"Porquanto os que estão na carne não podem agradar a Deus."
(Romanos 8:8)
Se os que estão na carne não podem agradar a Deus, mas Paulo declara que deseja o bem, ama a lei de Deus e luta para obedecê-la, então ele não pode estar descrevendo apenas a condição de um homem não regenerado.
Uma ilustração simples pode ajudar.
Quando vemos frutos em uma árvore, sabemos que eles não são a causa da vida da árvore, mas a evidência dela. Os galhos não produzem frutos por si mesmos. Eles só frutificam porque estão ligados à árvore e recebem dela toda a vida necessária para produzir.
Da mesma forma, o desejo de agradar a Deus não produz a regeneração. É a regeneração que produz o desejo de agradar a Deus. O querer o bem não é a causa da nova vida. É um dos seus frutos mais evidentes.
Pense também na experiência do próprio cristão: Houve um tempo em que Cristo não era seu tesouro. Talvez existisse religião, tradição familiar ou interesse intelectual pelas Escrituras. Talvez até houvesse boas obras, frequência aos cultos, orações e uma aparência de piedade. Mas não havia amor genuíno por Deus nem prazer verdadeiro em sua vontade.
Muitas vezes, a motivação era outra: Alguns buscam aceitação diante de Deus. Outros tentam aliviar a culpa da consciência. Outros acreditam que seus esforços contribuirão para sua salvação. Em todos esses casos, as obras são usadas como moeda de troca e uma tentativa de receber algo de Deus em troca do próprio desempenho.
No verdadeiro convertido, porém, ocorre uma mudança profunda: Ele não obedece para conquistar o favor de Deus, mas porque já foi alcançado por esse favor. Não busca a santidade para ser salvo, mas porque foi salvo. Não serve para obter a graça, mas porque recebeu graça.
Perceba a distinção: O religioso pode até praticar boas obras, frequentar cultos, orar e demonstrar zelo exterior. Contudo, muitas vezes suas obras são motivadas pela tentativa de conquistar aquilo que somente Deus pode conceder gratuitamente. Seus esforços acabam se transformando em uma espécie de moeda de troca, uma tentativa de obter aceitação, favor ou segurança diante de Deus por meio do próprio desempenho.
E isso ofende o Senhor, porque trata a obra de Cristo como se ela não fosse suficiente em si mesma.
Ainda que nem sempre perceba, aquele que deposita sua confiança, ainda que parcialmente, em sua própria santificação ou em suas próprias obras, acaba comunicando que a cruz precisa ser complementada por algo produzido pelo homem.
Mas as Escrituras ensinam exatamente o contrário. Cristo não tornou a salvação apenas possível. Ele efetivamente salvou seu povo. Sua obra não necessita de complementos, ajustes ou cooperação meritória da criatura para alcançar seu objetivo.
Por isso, a santificação não pode ser vista como uma contribuição humana que completa aquilo que Cristo deixou inacabado. A santificação é fruto da salvação, não sua causa. É consequência da cruz, não complemento da cruz. É evidência da graça, não uma parcela do mérito da graça.
O verdadeiro crente, porém, compreende que sua salvação está garantida exclusivamente na obra perfeita de Cristo. Ele sabe que sua aceitação diante de Deus não repousa em sua santificação, mas na justiça de Cristo que lhe foi imputada pela fé. Por isso, sua obediência não nasce da tentativa de merecer a salvação, mas da gratidão por uma salvação já recebida.
É verdade que sua santificação continua imperfeita e que ainda existe uma intensa luta contra o pecado. Contudo, sua motivação foi transformada. Aquilo que antes era barganha passa a ser gratidão. Aquilo que antes era tentativa de merecimento passa a ser adoração. Aquilo que antes era esforço para obter o amor de Deus passa a ser uma resposta ao amor de Deus.
Ele se santifica porque ama o Senhor que o amou primeiro. Busca a obediência porque deseja agradar aquele que o resgatou. Luta contra o pecado porque sabe que o pecado ofende o Deus que o salvou pela graça. Seus frutos não são a causa de sua aceitação diante de Deus, mas a evidência de que Deus já operou uma profunda transformação em seu coração.
Hoje, quando a Palavra confronta um pecado, algo dentro dele se curva diante da verdade de Deus. Quando ele falha, existe tristeza. Quando peca, existe arrependimento. Quando cai, existe desejo de retornar ao Senhor.
Esses desejos não surgiram da carne caída. Não nasceram de um coração morto. São evidências da graça de Deus operando na vida daquele que foi vivificado pelo Espírito.
Por isso, a declaração de Paulo não é uma exaltação da capacidade humana, mas um testemunho da eficácia da graça divina. O querer o bem está nele porque Deus já realizou uma obra profunda em seu coração.
E isso nos conduz naturalmente ao próximo ponto: Se o homem natural ama o pecado e o regenerado passa a amar a Deus, precisamos compreender o que aconteceu nessa transformação. Precisamos entender o que Deus faz no coração de uma pessoa quando a salva.
Para compreender a origem desses novos desejos, precisamos voltar à condição do homem antes da conversão.
A Bíblia não descreve o pecador como alguém que apenas precisa de mais informação, mais disciplina ou uma nova oportunidade. O problema do homem é muito mais profundo. Sua própria natureza está corrompida pelo pecado.
Antes da conversão, o homem ama o que Deus odeia e odeia o que Deus ama. Sua disposição natural está voltada contra Deus.
"por isso, o pendor da carne é inimizade contra Deus, pois não está sujeito à lei de Deus, nem mesmo pode estar."
(Romanos 8:7)
Observe que Paulo não diz apenas que o homem não se sujeita a Deus. Ele diz que o homem natural não pode sujeitar-se a Deus. O problema não é meramente comportamental. É um problema de natureza.
Pense em um urubu. Você pode colocar diante dele um prato com carne podre e outro com alimento limpo e saudável. O urubu não precisará ser convencido a escolher a carniça. Ele irá naturalmente para aquilo que corresponde à sua natureza.
Da mesma forma, o homem caído não precisa ser forçado a rejeitar Deus. Ele faz isso voluntariamente porque sua natureza está inclinada para o pecado. Ele escolhe aquilo que deseja, pois seus desejos estão escravizados à sua natureza caída.
O problema não está em sua capacidade de escolher, mas naquilo que ele ama e que, consequentemente, governa suas escolhas.
Assim como o urubu escolhe a carniça porque ela corresponde à sua natureza, o homem natural ama e escolhe aquilo que se opõe a Deus porque sua natureza está caída.
Por isso a solução bíblica não é apenas uma nova oportunidade de escolha. A solução é um novo coração.
"Dar-vos-ei coração novo e porei dentro de vós espírito novo; tirarei de vós o coração de pedra e vos darei coração de carne."
(Ezequiel 36:26)
E o próprio Deus declara qual será o resultado dessa obra:
"Porei dentro de vós o meu Espírito e farei que andeis nos meus estatutos, guardeis os meus juízos e os observeis."
(Ezequiel 36:27)
Observe que Deus não diz apenas que dará uma oportunidade para andar em seus caminhos.
Ele diz: "farei que andeis".
A mudança não acontece apenas ao redor do homem. Ela acontece dentro dele. Deus muda seus afetos, seus desejos e suas inclinações.
Imagine uma pessoa que durante toda a vida rejeitou determinado alimento. Então algo muda profundamente em seu organismo, e ela passa a desejar justamente aquilo que antes desprezava.
O que mudou? O alimento ou o paladar?
Da mesma forma, na regeneração, Deus não muda sua santidade para torná-la mais atraente ao pecador. Deus muda o coração do pecador.
Aquilo que antes parecia sem valor passa a ser precioso. Aquilo que antes era desprezado passa a ser amado. Aquilo que antes era considerado loucura passa a ser visto como tesouro.
É por isso que o verdadeiro convertido não é apenas alguém que mudou de comportamento. Muitas pessoas conseguem mudar hábitos, abandonar vícios ou adotar uma vida moralmente melhor. A regeneração vai muito além disso.
A regeneração muda aquilo que o homem ama.
Ela muda seus afetos mais profundos. Ela muda seus desejos. Ela muda sua relação com Deus, com o pecado e com a própria verdade.
Pense na experiência do cristão. Houve um tempo em que Cristo não era seu tesouro. Talvez houvesse religião, tradição familiar ou interesse intelectual pelas coisas de Deus. Mas não havia prazer verdadeiro em Deus.
Hoje, porém, quando a Palavra é pregada, algo em seu coração responde. Quando o pecado é revelado, existe tristeza. Quando Deus é glorificado, existe alegria.
Essas mudanças não são a causa da regeneração. São as evidências dela.
O homem não produz um novo coração para então vir a Deus. Deus lhe dá um novo coração, e por isso ele passa a amar a Deus.
Essa transformação é profunda e real. Contudo, ela não elimina imediatamente a presença do pecado. O coração foi renovado, mas a batalha ainda continua.
E é justamente essa tensão entre a nova natureza e a carne remanescente que nos ajuda a compreender por que o cristão continua lutando contra o pecado mesmo após ter sido alcançado pela graça.
Se Deus realmente transforma o coração do pecador, uma dúvida surge naturalmente: por que a luta contra o pecado continua presente na vida do cristão?
A resposta é que a regeneração muda a relação do homem com o pecado, mas não elimina imediatamente a presença do pecado. O cristão recebe um novo coração, mas continua habitando um corpo ainda marcado pelos efeitos da queda. Por isso, a vida cristã não é uma guerra entre duas pessoas, mas um conflito entre a nova natureza, criada por Deus, e a carne que ainda permanece até a glorificação.
O próprio Paulo descreve essa realidade:
"Porque não faço o bem que prefiro, mas o mal que não quero, esse faço."
(Romanos 7:19)
Observe a linguagem do apóstolo: Ele não diz que ama o mal. Não diz que deseja o pecado. Não diz que prefere a desobediência. Pelo contrário. Ele quer o bem. Ele ama a lei de Deus. Ele odeia o pecado.
O problema não está em seus desejos regenerados. O problema está na presença contínua da carne.
Essa é uma das evidências mais fortes de que Paulo está descrevendo um cristão. O homem natural pode sofrer as consequências do pecado, sentir vergonha do pecado ou lamentar os estragos causados pelo pecado. Mas ele não trava guerra contra o pecado porque ele ofende a santidade de Deus.
O incrédulo pode querer livrar-se da culpa.
O regenerado deseja livrar-se do próprio pecado.
O incrédulo deseja paz de consciência.
O regenerado deseja comunhão com Deus.
O incrédulo lamenta as consequências.
O regenerado lamenta ter entristecido o Senhor.
Essa diferença é fundamental.
Imagine dois homens presos na lama: O primeiro está preocupado porque suas roupas ficaram sujas. O segundo está preocupado porque não consegue chegar ao seu destino. À distância, ambos parecem estar enfrentando o mesmo problema. Mas seus corações estão focados em coisas completamente diferentes.
Da mesma forma, muitas pessoas sofrem por causa do pecado. Contudo, somente o regenerado sofre porque o pecado se opõe ao Deus que ele aprendeu a amar.
É por isso que o conflito descrito em Romanos 7 não é sinal de fracasso espiritual. O conflito é uma evidência de vida espiritual.
Um cadáver não luta. Um morto não guerreia. Um coração de pedra não trava batalhas contra o pecado. A guerra existe porque Deus já operou vida onde antes havia morte.
Quando o cristão lê as Escrituras e é confrontado por elas, sua carne quer resistir. Sua carne quer justificar-se. Sua carne quer encontrar desculpas. Mas existe algo dentro dele que concorda com Deus.
Existe algo dentro dele que diz:
"A Palavra está certa e eu estou errado."
Essa batalha continuará, em maior ou menor intensidade, durante toda a peregrinação cristã. Ela só terminará quando a presença do pecado for finalmente removida na glorificação.
Por isso, Romanos 7 não é o retrato de um incrédulo tentando encontrar Deus. É o retrato de um salvo que reconhece sua própria fraqueza, lamenta seu pecado e anseia pela libertação completa que ainda está por vir.
"Desventurado homem que sou! Quem me livrará do corpo desta morte?"
(Romanos 7:24)
O clamor de Paulo não é o clamor de alguém que busca a conversão. É o clamor de alguém que já conhece a Deus e deseja ser completamente livre da presença do pecado.
Essa realidade nos prepara para uma compreensão ainda mais profunda da vida cristã. Se o crente luta, cresce, persevera e avança em santidade, precisamos entender de onde vem essa capacidade. E as Escrituras nos mostram que a resposta não está na força da vontade humana, mas na atuação contínua da graça de Deus na vida do seu povo.
Ao observar a luta descrita em Romanos 7, alguém poderia concluir que Deus apenas oferece auxílio ao cristão e que, a partir desse ponto, a vitória depende principalmente de sua própria determinação.
Contudo, essa não é a maneira como Paulo explica a santificação.
O apóstolo reconhece sua responsabilidade, sua luta e seu esforço. Porém, quando procura a causa última de sua perseverança, ele não aponta para si mesmo. Ele aponta para a graça de Deus.
Por isso ele escreve:
"Porque Deus é quem efetua em vós tanto o querer como o realizar, segundo a sua boa vontade."
(Filipenses 2:13)
Observe cuidadosamente o texto. Paulo não afirma apenas que Deus efetua o realizar. Ele também afirma que Deus efetua o querer.
O mesmo Deus que produz a obediência produz também o desejo de obedecer.
Isso é extremamente importante, porque nos impede de imaginar que Deus apenas fornece ajuda externa enquanto a decisão final permanece inteiramente nas mãos do homem.
O texto não diz que Deus cria a possibilidade de querer. O texto não diz que Deus cria a possibilidade de realizar. O texto afirma que Deus efetua tanto o querer quanto o realizar.
A graça não apenas auxilia a santificação. A graça produz a santificação.
Uma ilustração simples pode ajudar: Pense em um rio. O rio não produz sua própria nascente. Ele apenas manifesta a água que continuamente flui da fonte.
Da mesma forma, a santificação não é a fonte da graça. A santificação é a manifestação da graça que continuamente flui de Deus para seu povo. Quando vemos fé, arrependimento, perseverança e crescimento espiritual, estamos vendo os efeitos da graça, não sua origem.
É exatamente por isso que Paulo jamais atribui a si mesmo o mérito de sua caminhada cristã.
"Pela graça de Deus, sou o que sou; e a sua graça, que me foi concedida, não se tornou vã; antes, trabalhei muito mais do que todos eles; todavia, não eu, mas a graça de Deus comigo."
(1 Coríntios 15:10)
Observe o equilíbrio bíblico. Paulo trabalhou, Paulo lutou, Paulo perseverou e Paulo se esforçou. As Escrituras jamais apresentam o cristão como alguém passivo.
Contudo, quando Paulo olha para trás e procura a explicação para sua perseverança, ele não encontra fundamento para gloriar-se em si mesmo. Ele vê a graça de Deus operando em cada etapa de sua caminhada.
Isso não diminui a responsabilidade humana. Pelo contrário. O próprio contexto de Filipenses afirma:
"desenvolvei a vossa salvação com temor e tremor."
(Filipenses 2:12)
O cristão age porque Deus está agindo nele. O cristão luta porque Deus está operando nele. O cristão persevera porque Deus sustenta sua perseverança.
A atividade do crente não compete com a ação de Deus. Ela é resultado dela.
Uma ilustração simples ajuda a compreender essa verdade: Pense em Lázaro saindo do túmulo. Depois que Cristo lhe deu vida, Lázaro realmente andou. Seus pés se moveram. Seu corpo respondeu. Seus músculos trabalharam. Mas nada disso teria acontecido se Cristo não tivesse, primeiro, lhe concedido vida.
Da mesma forma, o cristão realmente luta, obedece, persevera e cresce em santidade. Contudo, todas essas ações são consequência da vida que Deus já produziu nele. A graça não substitui sua atividade. A graça produz sua atividade.
Por isso, quando um cristão cresce em santidade, a pergunta mais importante não é: "Quanto esforço ele fez?", mas: "Como a graça de Deus operou nele?"
Toda verdadeira obediência possui a marca da graça divina.
Essa verdade amplia nossa compreensão sobre a própria salvação. Se Deus produz o querer e o realizar na vida cristã, então precisamos entender como essa realidade se relaciona com a fé, a santificação e a perseverança. E, ao examinarmos essa questão, veremos que a mesma graça que inicia a salvação é também a graça que a sustenta até o fim.
As Escrituras afirmam:
"Porque pela graça sois salvos, mediante a fé; e isto não vem de vós; é dom de Deus."
(Efésios 2:8)
"Porque somos feitura dele, criados em Cristo Jesus para boas obras, as quais Deus de antemão preparou para que andássemos nelas."
(Efésios 2:10)
Esses versículos nos lembram que a salvação inteira carrega a mesma assinatura: a iniciativa, o poder e a eficácia pertencem ao Senhor.
A fé é dom de Deus, e as boas obras nas quais andamos foram preparadas por Deus de antemão.
Por isso, quando observamos a obra da salvação como um todo, encontramos o mesmo padrão do começo ao fim. A regeneração é obra de Deus. A fé é dom de Deus. O arrependimento é concedido por Deus. A santificação é produzida por Deus. A perseverança é sustentada por Deus. E a glorificação será consumada por Deus.
A salvação não começa pela graça e termina pelo esforço humano. A mesma graça que ressuscita o pecador espiritualmente morto é a graça que lhe concede fé, produz arrependimento, sustenta sua caminhada e o preserva até o fim.
Neste ponto, existe uma verdade que muitas vezes passa despercebida: É relativamente fácil perceber o erro de atribuir ao homem a origem da fé. Afinal, as Escrituras ensinam claramente que a fé é dom de Deus. Contudo, o mesmo princípio precisa ser aplicado a todo o restante da vida cristã.
Se a fé é fruto da graça, não podemos transformá-la na causa da salvação.
Da mesma forma, se a santificação é produzida pela graça, não podemos transformá-la na causa da perseverança ou da própria salvação.
Os dois exemplos acima cometem o mesmo erro fundamental: transformam em causa aquilo que a Escritura apresenta como fruto da graça.
A mesma heresia que esvazia a suficiência da cruz ao transformar a fé na causa da salvação pode, de forma ainda mais sutil, transformar a santificação na causa da perseverança ou da própria salvação.
Em ambos os casos, algo que Deus produz passa a ocupar o lugar daquilo que somente Deus pode realizar. O fruto passa a ser tratado como causa, e a consequência passa a ser tratada como fundamento.
Mas as Escrituras apresentam uma realidade completamente diferente: Tanto a fé quanto a santificação procedem da mesma fonte: a atuação soberana de Deus na vida do seu povo.
A fé não nasce da capacidade natural do homem.
A santificação também não nasce da autonomia espiritual do homem.
Ambas são frutos da graça operando em diferentes momentos da mesma obra de salvação.
Uma ilustração simples ajuda a perceber isso: Pense em uma árvore frutífera. Ninguém olha para os frutos e conclui que os galhos geraram aqueles frutos por si mesmos. Os frutos só existem porque os galhos estão profundamente ligados à árvore. E, estando a árvore viva, ela continuamente envia a seiva e todos os nutrientes necessários para que os galhos sejam capazes de frutificar.
Da mesma forma, a fé não produz a nova vida. A santificação não produz a nova vida. A graça soberana de Deus produz a nova vida, produz a fé, produz a santificação, produz a perseverança e conduz seus filhos em segurança até a glória eterna.
Os frutos revelam a vida. Eles não são a fonte dela.
É exatamente isso que Paulo reconhece quando olha para sua própria caminhada cristã:
"Pela graça de Deus, sou o que sou; e a sua graça, que me foi concedida, não se tornou vã; antes, trabalhei muito mais do que todos eles; todavia, não eu, mas a graça de Deus comigo."
(1 Coríntios 15:10)
Observe que Paulo não está falando de sua conversão, mas de seu trabalho, seu serviço, sua perseverança e sua vida cristã. Ele trabalhou, lutou, perseverou e se esforçou. Mas quando procura a explicação última para tudo isso, não encontra fundamento para gloriar-se em si mesmo.
Ele vê a graça de Deus operando do início ao fim.
Por isso, a santificação não é a continuação da salvação por meios diferentes. Ela é a continuação da mesma graça que já estava operando desde a regeneração.
"Estou plenamente certo de que aquele que começou boa obra em vós há de completá-la até ao Dia de Cristo Jesus."
(Filipenses 1:6)
Observe que o texto não diz apenas que Deus começou a obra. Também diz que Deus a completará.
O Deus que inicia é o Deus que sustenta.
O Deus que chama é o Deus que preserva.
O Deus que concede fé é o Deus que produz perseverança.
Por isso, não podemos atribuir a Deus toda a glória pela fé e, ao mesmo tempo, atribuir ao homem a glória por sua perseverança. A mesma graça que produz a fé produz também a santificação. A mesma graça que inicia a obra é a graça que a sustenta até o fim.
Quando a fé é vista como causa da salvação, a glória deixa de pertencer exclusivamente a Cristo.
Da mesma forma, quando a santificação é vista como a causa da perseverança ou da salvação final, a glória deixa de pertencer exclusivamente à graça.
Em ambos os casos, algo que deveria ser reconhecido como fruto passa a ocupar o lugar da causa.
A fé é fruto da graça.
A santificação é fruto da graça.
A perseverança é fruto da graça.
Do começo ao fim, a salvação pertence ao Senhor.
Essa verdade reúne tudo o que vimos até aqui. A regeneração, a fé, o arrependimento, a santificação, a perseverança e a glorificação não são obras independentes umas das outras. São manifestações da mesma graça soberana atuando na vida do povo de Deus.
Quando todas essas verdades são colocadas lado a lado, resta uma única conclusão possível: toda a glória pela salvação pertence àquele que a planejou, realizou, aplica e consumará em seu povo.
Ao chegarmos a este ponto, já vimos que a regeneração é obra de Deus, que a fé é dom de Deus, que o arrependimento é concedido por Deus, que a santificação é produzida por Deus e que a perseverança é sustentada por Deus.
Também vimos que o homem natural não produz em si mesmo o desejo de agradar a Deus. O querer o bem surge da obra regeneradora do Espírito Santo. E vimos ainda que a luta descrita em Romanos 7 não é evidência da ausência da graça, mas uma das evidências de sua presença.
Quando reunimos todas essas verdades, percebemos que elas apontam para uma única direção.
A salvação inteira pertence ao Senhor.
Ela não é parcialmente de Deus e parcialmente do homem. Ela não começa pela graça e termina pela capacidade humana. Ela não depende da iniciativa divina em um momento e da autonomia humana em outro.
Do começo ao fim, a salvação é Deus agindo em nós, apesar de nós.
No céu, continuaremos vendo com perfeita clareza aquilo que muitas vezes enxergamos apenas parcialmente nesta vida: foi a poderosa mão de Deus que sempre operou em favor do seu povo.
Nunca haverá uma única alma na glória que atribua a si mesma qualquer parte do mérito de sua salvação. Toda honra, toda glória e todo louvor serão dados exclusivamente ao Senhor.
Afinal, ninguém estará na presença de Deus por mérito próprio. Se alguém estiver diante do trono do Cordeiro, contemplando a majestade de Deus por toda a eternidade, será unicamente porque a graça soberana do Senhor o sustentou do início ao fim.
Foi Deus quem escolheu seus eleitos.
Foi Deus quem redimiu seus eleitos na cruz.
Foi Deus quem chamou.
Foi Deus quem regenerou.
Foi Deus quem concedeu fé.
Foi Deus quem concedeu arrependimento.
Foi Deus quem produziu o querer.
Foi Deus quem produziu o realizar.
Foi Deus quem sustentou seus filhos em meio às lutas.
E é Deus quem os conduz em segurança até a glória eterna.
Por isso Paulo escreve:
"Estou plenamente certo de que aquele que começou boa obra em vós há de completá-la até ao Dia de Cristo Jesus."
(Filipenses 1:6)
Observe que a segurança de Paulo não está na força do homem, mas na fidelidade de Deus. O mesmo Deus que inicia sua obra é o Deus que a completa.
Uma ilustração simples ajuda a visualizar essa verdade. Imagine uma construção grandiosa. Quando a obra termina, ninguém atribui o resultado aos tijolos. Toda a glória pertence àquele que planejou, dirigiu e concluiu a construção.
Da mesma forma, a salvação é obra de Deus do início ao fim. Nós somos os beneficiários da graça, não sua fonte.
É exatamente por isso que Paulo conclui sua exposição sobre a soberania de Deus dizendo:
"Porque dele, e por meio dele, e para ele são todas as coisas. A ele, pois, a glória eternamente. Amém!"
(Romanos 11:36)
Observe a abrangência dessas palavras.
Dele. A salvação tem sua origem em Deus. Por meio dele. A salvação é realizada por Deus. Para ele. A salvação tem como propósito final a glória de Deus.
Não sobra espaço para vanglória humana. Não sobra espaço para mérito humano. Não sobra espaço para que o homem reivindique para si aquilo que pertence ao Senhor.
Jonas declarou:
"Ao Senhor pertence a salvação!"
(Jonas 2:9)
E essa continua sendo a conclusão inevitável de todo o ensino bíblico.
Quando compreendemos Romanos 7 corretamente, percebemos que até mesmo a luta do cristão contra o pecado aponta para a graça de Deus. O desejo de obedecer, o arrependimento após a queda, a perseverança em meio às fraquezas e o crescimento em santidade não são evidências da autonomia humana, mas da atuação contínua do Espírito Santo na vida do crente.
Por isso, toda a vida cristã deve ser marcada pela humildade, pela gratidão e pela adoração. Se a salvação pertence ao Senhor do começo ao fim, então toda a glória também pertence ao Senhor do começo ao fim.
SOLI DEO GLORIA
"Porque dele, e por meio dele, e para ele são todas as coisas. A ele, pois, a glória eternamente. Amém!"
(Romanos 11:36)
Autor: Wagner Costa