"Desde os dias de João Batista até agora, o Reino dos Céus é tomado por esforço, e os que se esforçam se apoderam dele."
(Mateus 11:12)
Essa é uma das passagens mais difíceis de interpretar do Novo Testamento.
À primeira vista, alguém pode concluir: "Está vendo? Quem faz mais força entra no Reino. A salvação depende do esforço humano."
Mas esse é um exemplo claro de como uma interpretação isolada pode levar a sérios erros e, consequentemente, a um falso evangelho.
A boa interpretação bíblica não começa perguntando: "O que eu acho que esse texto significa?" Ela começa perguntando: "O que Deus quis comunicar por meio desse texto?"
Para responder a essa pergunta, precisamos respeitar alguns princípios fundamentais da interpretação bíblica.
Não. A Bíblia nunca se contradiz.
Quando encontramos textos que aparentemente entram em conflito, o problema não está na Palavra de Deus, mas na nossa compreensão dela. Como Deus é o autor das Escrituras, Ele não se contradiz. Por isso, um dos princípios mais importantes da interpretação bíblica é o da não contradição.
Isso significa que nenhuma doutrina pode ser construída de maneira que contradiga aquilo que a Bíblia ensina de forma clara e repetida. Além disso, nenhuma doutrina deve ser baseada em um único versículo, especialmente quando ele é reconhecidamente difícil. As doutrinas cristãs são estabelecidas pelo conjunto do ensino das Escrituras.
Por exemplo:
"Porque pela graça sois salvos, mediante a fé, e isto não vem de vós, é dom de Deus, não de obras, para que ninguém se glorie."
(Efésios 2:8,9)
Esse texto ensina de forma direta que a salvação é um dom de Deus, recebido pela fé, e não pelas obras.
Assim, se alguém interpretar Mateus 11:12 como se o homem conquistasse a salvação pelo próprio esforço, essa interpretação precisa ser rejeitada, porque entra em conflito com um ensino claro e explícito das Escrituras.
Em outras palavras, nunca devemos usar um texto difícil para reinterpretar dezenas de textos claros. O correto é exatamente o contrário: os textos claros iluminam os difíceis, preservando a unidade e a harmonia de toda a revelação bíblica.
Todo texto bíblico possui um contexto, e ignorá-lo é um dos erros mais comuns da interpretação bíblica.
Para compreender corretamente uma passagem, precisamos observar pelo menos três níveis de contexto:
Contexto imediato: analisa os versículos antes e depois da passagem.
Contexto geral: considera o assunto do capítulo e do livro em que ela está inserida.
Contexto bíblico: compara esse texto com o restante das Escrituras, garantindo que nenhuma interpretação contradiga o ensino claro da Palavra de Deus.
Em Mateus 11, por exemplo, Jesus não está ensinando como alguém é salvo. O contexto mostra que Ele está descrevendo o impacto da pregação de João Batista e a chegada do Messias.
João Batista foi o profeta que anunciou a vinda de Cristo. Sua pregação marcou a transição para a manifestação pública do Reino de Deus.
Desde então, o Reino inaugurou um período de intensa manifestação. Tanto a oposição ao Reino quanto a resposta daqueles que criam demonstravam que algo extraordinário estava acontecendo na história da redenção.
Quando respeitamos esses três níveis de contexto, percebemos que Mateus 11:12 não ensina salvação pelas obras. Independentemente da interpretação adotada, o texto descreve a poderosa manifestação do Reino de Deus, e não um método pelo qual o homem conquista a salvação por seu próprio esforço.
A resposta é: depende.
A Bíblia possui diferentes gêneros literários, como narrativas históricas, leis, poesias, provérbios, profecias, parábolas e literatura apocalíptica. Cada gênero possui características próprias e deve ser interpretado de acordo com sua natureza.
Isso significa que nem todo texto deve ser entendido literalmente, mas também não devemos transformar em figura de linguagem aquilo que a Bíblia apresenta como fato. O próprio contexto é quem indica quando uma expressão é literal ou figurada.
Além disso, a própria Bíblia interpreta a Bíblia. Esse princípio é especialmente importante quando encontramos figuras de linguagem. Em vez de atribuir qualquer significado ao texto, devemos procurar outras passagens das Escrituras que esclareçam o sentido da expressão e verificar se a interpretação está em harmonia com a doutrina bíblica.
A expressão usada por Jesus em Mateus 11:12 é uma das mais debatidas do Novo Testamento. Dependendo de como o verbo é compreendido, a passagem pode enfatizar a oposição violenta sofrida pelo Reino ou a intensidade daqueles que respondem ao chamado do Reino. Em qualquer dos casos, o texto não ensina que a salvação seja conquistada pelo mérito humano.
Isso nos lembra de outro princípio importante da interpretação bíblica: nem toda expressão deve ser entendida de forma literal, e nem toda dificuldade de tradução muda uma doutrina.
Pense em alguém que descobre um tesouro de valor incalculável. Essa pessoa faz de tudo para não perdê-lo. O esforço não compra o tesouro, apenas demonstra o quanto ele é valioso.
Foi exatamente essa ilustração que o próprio Jesus usou:
"O reino dos céus é semelhante a um tesouro oculto no campo, o qual certo homem, tendo-o achado, escondeu. E, transbordante de alegria, vai, vende tudo o que tem e compra aquele campo."
(Mateus 13:44)
O homem não está comprando a salvação por suas obras. A parábola mostra que quem compreende o valor de Cristo considera todo o resto sem valor diante dEle. Da mesma forma, Mateus 11:12 jamais pode ser interpretado como uma defesa da salvação pelo esforço humano.
Não.
A Bíblia ensina de forma clara e repetida que a salvação é inteiramente pela graça de Deus. Por isso, Mateus 11:12 jamais pode ser interpretado de uma maneira que contradiga esse ensino.
As Escrituras afirmam que o ser humano, em seu estado natural, não possui capacidade de ir a Cristo por iniciativa própria.
"Ninguém pode vir a mim se o Pai, que me enviou, não o trouxer."
(João 6:44)
Se ninguém pode vir a Cristo por si mesmo, então Mateus 11:12 não pode estar ensinando que alguém entra no Reino pela força da própria vontade ou pelo mérito de suas obras.
A Bíblia ensina que Deus chama eficazmente o pecador, transforma seu coração, concede arrependimento e fé, e esse novo coração passa a responder ao chamado do Evangelho.
Pense em um homem faminto que encontra alimento. Ele corre até a comida, mas sua corrida não produziu o alimento. Ela apenas revelou sua necessidade. Da mesma forma, a fé, a perseverança e o desejo de seguir a Cristo não conquistam a salvação. Eles são evidências da obra que Deus já realizou no coração.
Por isso, usar Mateus 11:12 para defender a salvação pelas obras é construir uma doutrina sobre um texto difícil, ignorando diversos textos claros das Escrituras.
Por exemplo:
"E, se é pela graça, já não é pelas obras; do contrário, a graça já não é graça."
(Romanos 11:6)
"Mas, se é pelas obras, já não é mais graça; do contrário, a obra já não é obra."
(Romanos 11:6)
"Sabendo, contudo, que o homem não é justificado por obras da lei, e sim mediante a fé em Cristo Jesus..."
(Gálatas 2:16)
Quando respeitamos os princípios da interpretação bíblica, entendemos que Mateus 11:12 não ensina que o homem conquista o Reino de Deus pelo próprio esforço. A passagem descreve a poderosa manifestação do Reino de Deus, seja enfatizando a oposição que ele enfrenta, seja destacando a resposta intensa daqueles que são alcançados pela graça.
A doutrina permanece exatamente a mesma em toda a Escritura:
"Porque pela graça sois salvos, mediante a fé, e isto não vem de vós, é dom de Deus, não de obras, para que ninguém se glorie."
(Efésios 2:8,9)
Ao longo da história da Igreja, inclusive entre comentaristas reformados, essa passagem foi compreendida de duas maneiras principais. O importante é notar que nenhuma delas ensina salvação pelas obras.
A primeira interpretação entende que Jesus está dizendo que o Reino dos Céus sofre oposição violenta desde os dias de João Batista. João foi preso, os profetas foram rejeitados, e o próprio Cristo seria perseguido e crucificado. Nesse entendimento, a ênfase está na hostilidade dos inimigos do Reino.
A segunda interpretação entende que Jesus descreve a forma intensa como as pessoas estavam respondendo à chegada do Reino. Com a pregação de João Batista e a manifestação do Messias, homens e mulheres eram alcançados pela graça, abandonavam sua antiga confiança em si mesmos e no sistema religioso, e corriam para Cristo com urgência, disposição e perseverança, mesmo diante de perseguições.
Essa segunda interpretação é reforçada por outras declarações de Jesus, como a parábola do tesouro escondido (Mateus 13:44), que mostra alguém disposto a abrir mão de tudo porque encontrou algo infinitamente mais valioso.
Em ambas as interpretações, a mensagem é a mesma: a chegada do Reino de Deus inaugura um período de intensa manifestação. Seja destacando a oposição que o Reino enfrenta, seja enfatizando a resposta vigorosa daqueles que são alcançados pela graça, o avanço do Reino é inevitável e nada pode frustrar os propósitos de Deus.
Independentemente de qual dessas interpretações se adote, a conclusão é a mesma: Mateus 11:12 NÃO ensina que alguém conquista a salvação por mérito próprio.
A Escritura é clara ao afirmar que a salvação é inteiramente obra de Deus:
"Ninguém pode vir a mim se o Pai, que me enviou, não o trouxer."
(João 6:44)
"Porque Deus é quem efetua em vós tanto o querer como o realizar, segundo a sua boa vontade."
(Filipenses 2:13)
Assim, se o texto descreve pessoas avançando com intensidade em direção ao Reino, isso não significa que elas produziram sua própria salvação. Significa que Deus já havia operado em seus corações. O esforço não é a causa da salvação, mas uma de suas consequências.
Portanto, usar Mateus 11:12 para defender a salvação pelas obras não apenas ignora o contexto da passagem, mas também contradiz o ensino claro e consistente de toda a Escritura.
Textos difíceis nunca anulam textos claros. Eles precisam ser compreendidos à luz deles. Essa é uma das regras mais importantes da interpretação bíblica.
Em qualquer das duas interpretações, a conclusão é exatamente a mesma: Mateus 11:12 não ensina que o homem conquista a salvação pelo próprio esforço. A salvação continua sendo, do começo ao fim, obra da graça de Deus, recebida mediante a fé e jamais pelas obras.
Depois de analisarmos o texto à luz da hermenêutica bíblica, do contexto, da linguagem utilizada por Jesus e da doutrina da salvação, a resposta é clara: Mateus 11:12 não ensina a salvação pelas obras.
A passagem pode enfatizar tanto a oposição enfrentada pelo Reino de Deus quanto a resposta intensa daqueles que são alcançados pela graça. Em nenhuma dessas interpretações, porém, existe espaço para a ideia de que o homem conquista sua salvação por mérito próprio.
Entretanto, em nenhuma das interpretações historicamente defendidas por comentaristas fiéis às Escrituras existe espaço para a ideia de que o homem conquista sua salvação por mérito próprio.
Esse estudo também nos ensina uma importante lição sobre como interpretar a Bíblia: textos difíceis devem ser compreendidos à luz dos textos claros, nunca o contrário.
Assim, preservamos a unidade das Escrituras, honramos a intenção do Autor divino e permanecemos firmes na verdade do Evangelho: a salvação é somente pela graça, mediante a fé, para a glória de Deus.
Que esse estudo nos lembre de que a correta interpretação das Escrituras não é apenas um exercício intelectual, mas um ato de reverência ao Deus que inspirou sua Palavra. Conhecer corretamente a verdade é também uma forma de glorificar Aquele que a revelou.
SOLI DEO GLORIA
Autor: Wagner Costa