Romanos 4
(NVT)
(NVT)
Romanos 4 continua o argumento iniciado no capítulo 3. Paulo acabou de afirmar que somos justificados pela fé, sem as obras da lei. Agora ele prova que isso não é novidade, mas sempre foi o modo de Deus salvar. Para isso, ele recorre a Abraão e Davi, duas autoridades incontestáveis para os judeus.
Gênesis 15:6 declara que “Abraão creu no Senhor, e isso lhe foi imputado para justiça”. A justiça foi creditada, não conquistada. Séculos depois, Davi escreveu no Salmo 32:1–2 que feliz é aquele cujo pecado não é imputado. A Lei e os Profetas já ensinavam que a justificação é ato gracioso de Deus.
Paulo também mostra que Abraão foi justificado antes da circuncisão e muito antes da lei de Moisés. Isso significa que a promessa nunca dependeu de rito, tradição ou desempenho moral. Ela depende da graça soberana de Deus. Se fosse por obras, a promessa deixaria de ser promessa.
Além disso, a fé de Abraão aponta para Cristo. Ele creu no Deus que dá vida aos mortos. Nós cremos no Deus que ressuscitou Jesus (Romanos 4:24). A salvação sempre foi obra exclusiva de Deus do começo ao fim.
¹ Afinal, o que podemos dizer sobre Abraão, o antepassado de nosso povo? O que ele ganhou com isso tudo?
² Se suas boas ações o tornaram justo, ele teria do que se orgulhar — mas não diante de Deus.
³ Pois as Escrituras dizem: “Abraão creu em Deus, e isso foi creditado a ele como justiça” (Gênesis 15:6).
Comentário: Os judeus viam Abraão como o maior exemplo de obediência, mas Paulo mostra que até ele foi justificado somente pela fé. Gênesis 15:6 deixa claro que ele creu, e isso lhe foi creditado como justiça. A justiça foi imputada, não produzida por obras. Se fosse por desempenho, haveria motivo para glória, mas não diante de Deus. Efésios 2:8–9 confirma que a salvação é pela graça, mediante a fé, para que ninguém se glorie. Isso confronta qualquer ensino que misture fé com mérito. Abraão foi aceito por confiar na promessa, não por merecer a promessa.
⁴ Quando alguém trabalha, o salário que recebe não é um presente, mas algo a que tem direito.
⁵ Mas a pessoa que não confia em suas próprias obras, mas crê naquele que declara o ímpio justificado, é declarada justa pela fé.
Comentário: Paulo usa uma comparação simples. Quem trabalha recebe salário, não presente. Se a salvação fosse por obras, Deus estaria pagando uma dívida. Mas Romanos 4:5 afirma que Deus justifica o ímpio. Ele declara justo quem não tem justiça própria. Jesus ensinou o mesmo ao dizer que veio chamar pecadores (Lucas 5:32). Isso derruba qualquer sistema religioso baseado em esforço pessoal, penitência ou desempenho moral. A base da justificação é graça, não recompensa.
⁶ Davi também fala dessa realidade quando descreve a felicidade daqueles que são declarados justos sem fazer o que a lei ordena:
⁷ “Felizes aqueles cujas transgressões são perdoadas, cujos pecados são cobertos.
⁸ Felizes aqueles cujos pecados o Senhor não toma em conta.” (Salmo 32:1-2)
Comentário: Davi confirma essa verdade no Salmo 32. Ele não fala da felicidade de quem cumpriu perfeitamente a lei, mas de quem teve o pecado perdoado e não imputado. A alegria está na não imputação do pecado. Isso mostra que, mesmo no Antigo Testamento, a justificação já era um ato gracioso de Deus. Religiões que ensinam compensação por obras contradizem essa realidade. O perdão não é pagamento por desempenho; é misericórdia concedida.
⁹ Agora, essa bênção é somente para os circuncidados ou também para os incircuncisos? Relembramos: “Abraão creu em Deus, e isso foi creditado a ele como justiça” (Gênesis 15:6).
¹⁰ Mas quando isso aconteceu? Antes ou depois de ser circuncidado? Aconteceu antes de Abraão ser circuncidado, e não depois.
Comentário: Paulo destaca a ordem dos acontecimentos. Abraão foi declarado justo em Gênesis 15 e só depois recebeu a circuncisão em Gênesis 17. O sinal veio como confirmação, não como causa. Isso destrói qualquer confiança em ritos como meio de salvação. Batismo, tradição religiosa ou participação em cerimônias não produzem justificação. A fé vem antes do sinal, porque a obra é interna e realizada por Deus.
¹¹ A circuncisão foi um sinal, uma confirmação de que Deus já o havia declarado justo por meio da fé, antes mesmo de ser circuncidado. Por isso ele é o pai de todos os que creem, mesmo que não sejam circuncidados e mesmo assim são declarados justos por Deus.
¹² E Abraão também é pai daqueles que são circuncidados, mas não apenas por serem circuncidados — são seus filhos espirituais porque seguem os passos da fé que nosso pai Abraão teve antes de ser circuncidado.
Comentário: Abraão é pai espiritual de todos os que creem, não apenas dos que descendem fisicamente dele. Gálatas 3:7 afirma que os da fé são filhos de Abraão. Jesus disse que os verdadeiros filhos de Abraão são os que praticam sua fé (João 8:39). Isso confronta qualquer ideia de privilégio étnico ou institucional na salvação. Não é sangue, é fé.
¹³ Não foi por obedecer à lei que Deus prometeu a Abraão e seus descendentes que herdariam o mundo, mas porque Abraão foi declarado justo por Deus por meio da fé.
¹⁴ Pois, se a herança depende da lei, a fé não tem valor e a promessa não vale coisa alguma.
¹⁵ A lei traz castigo, pois, quando não há lei, também não há transgressão.
Comentário: A promessa foi feita antes da lei. Se dependesse da lei, ninguém herdaria nada, porque a lei revela pecado (Romanos 3:20). Gálatas 3:17 explica que a lei não anulou a promessa feita anteriormente. A lei mostra a culpa; a promessa aponta para Cristo. Sistemas religiosos que colocam obediência legal como condição para justificação ignoram essa ordem bíblica. A herança repousa na promessa graciosa de Deus.
¹⁶ Portanto, a promessa se baseia na fé, para que seja de graça. Assim, ela é garantida a todos os descendentes de Abraão — não apenas aos que obedecem à lei, mas também aos que creem, como ele creu. Pois Abraão é o pai de todos nós.
¹⁷ Como dizem as Escrituras: “Eu o fiz pai de muitas nações” (Gênesis 17:5). Abraão creu no Deus que dá vida aos mortos e cria coisas que antes não existiam.
Comentário: A promessa é pela fé para que seja pela graça e, assim, seja garantida. Se dependesse da constância humana, ninguém teria segurança. Abraão creu no Deus que dá vida aos mortos e chama à existência o que não existe. Nós cremos no Deus que ressuscitou Jesus (Atos 2:24). A salvação é segura porque depende do poder e da fidelidade de Deus, não da estabilidade do homem.
¹⁸ Mesmo quando não havia motivo para ter esperança, Abraão creu, continuou esperando e se tornou o pai de muitas nações. Pois Deus lhe tinha dito: “Esse é o número de descendentes que você terá!” (Gênesis 15:5).
Comentário: Abraão creu quando não havia motivo humano para esperar. Ele se agarrou à promessa divina acima das circunstâncias. Hebreus 11:1 ensina que fé é certeza do que se espera. Fé não é pensamento positivo nem força interior. É confiança na palavra de Deus, mesmo quando a realidade parece dizer o contrário.
¹⁹ E, apesar de quase cem anos, Abraão nunca duvidou que o corpo estivesse como que morto, assim como o ventre de Sara era incapaz de gerar filhos;
²⁰ sua fé não se enfraqueceu, mas fortaleceu-se, e ele louvou a Deus.
²¹ Estava plenamente convencido de que Deus é poderoso para cumprir tudo que promete.
Comentário: Abraão reconheceu sua incapacidade e a esterilidade de Sara, mas sua fé não estava apoiada na força humana. Ele estava plenamente convencido de que Deus era poderoso para cumprir o que prometera. 2 Coríntios 1:20 afirma que todas as promessas de Deus têm em Cristo o “sim”. A fé verdadeira glorifica a Deus porque reconhece que somente Ele pode realizar o impossível. Não é autoconfiança, é confiança no Deus fiel.
²² Por isso “isso lhe foi creditado como justiça” (Gênesis 15:6).
²³ E, quando foi dito que isso lhe foi creditado, não se aplicava apenas a Abraão,
²⁴ mas também a nós, pois será creditado a nós que cremos naquele que ressuscitou Jesus, nosso Senhor, dos mortos.
²⁵ Ele foi entregue à morte por nossos pecados e ressuscitado para nos declarar justos diante de Deus.
Comentário: O que aconteceu com Abraão foi registrado para nós. A justiça que lhe foi creditada é a mesma que é creditada aos que creem naquele que ressuscitou Jesus dentre os mortos. Romanos 4:25 resume o evangelho: Cristo foi entregue por nossas transgressões e ressuscitado para nossa justificação. Sua morte tratou do pecado; sua ressurreição confirmou a obra consumada. Nenhuma obra humana completa o que Cristo fez. Ele fez tudo; o pecador apenas recebe pela fé. Como declara Jonas 2:9, “Ao Senhor pertence a salvação”.