LIVE da Aula
Podcast da Aula
1 Paulo, servo de Jesus Cristo, chamado para ser apóstolo, separado para o evangelho de Deus,
2 o qual foi por Deus, outrora, prometido por intermédio dos seus profetas nas Sagradas Escrituras,
3 com respeito a seu Filho, o qual, segundo a carne, veio da descendência de Davi
4 e foi designado Filho de Deus com poder, segundo o espírito de santidade pela ressurreição dos mortos, a saber, Jesus Cristo, nosso Senhor,
5 por intermédio de quem viemos a receber graça e apostolado por amor do seu nome, para a obediência por fé, entre todos os gentios,
6 de cujo número sois também vós, chamados para serdes de Jesus Cristo.
7 A todos os amados de Deus, que estais em Roma, chamados para serdes santos, graça a vós outros e paz, da parte de Deus, nosso Pai, e do Senhor Jesus Cristo.
8 Primeiramente, dou graças a meu Deus, mediante Jesus Cristo, no tocante a todos vós, porque, em todo o mundo, é proclamada a vossa fé.
9 Porque Deus, a quem sirvo em meu espírito, no evangelho de seu Filho, é minha testemunha de como incessantemente faço menção de vós
10 em todas as minhas orações, suplicando que, nalgum tempo, pela vontade de Deus, se me ofereça boa ocasião de visitar-vos.
11 Porque muito desejo ver-vos, a fim de repartir convosco algum dom espiritual, para que sejais confirmados,
12 isto é, para que, em vossa companhia, reciprocamente nos confortemos por intermédio da fé mútua, vossa e minha.
13 Porque não quero, irmãos, que ignoreis que, muitas vezes, me propus ir ter convosco (no que tenho sido, até agora, impedido), para conseguir igualmente entre vós algum fruto, como também entre os outros gentios.
14 Pois sou devedor tanto a gregos como a bárbaros, tanto a sábios como a ignorantes;
15 por isso, quanto está em mim, estou pronto a anunciar o evangelho também a vós outros, em Roma.
16 Pois não me envergonho do evangelho, porque é o poder de Deus para a salvação de todo aquele que crê, primeiro do judeu e também do grego;
17 visto que a justiça de Deus se revela no evangelho, de fé em fé, como está escrito:
O justo viverá por fé.
Nos versículos 1-7, Paulo começa a carta apresentando quem é e qual é a mensagem que recebeu. Ele se apresenta como servo de Jesus Cristo, chamado para ser apóstolo e separado para o Evangelho de Deus. Esse Evangelho não nasceu da iniciativa humana. Ele pertence a Deus e já havia sido prometido nas Escrituras. Paulo não está trazendo uma novidade, mas anunciando o cumprimento daquilo que Deus vinha prometendo.
No versículo 2, percebemos que toda a história bíblica caminha para Cristo. Desde a queda, Deus prometeu o descendente que venceria a serpente. O protoevangelho já apontava para a redenção que seria realizada por Jesus. A promessa caminhou pela história até chegar ao Filho.
Nos versículos 3-4, Paulo apresenta esse Filho. Segundo a carne, Jesus veio da descendência de Davi, cumprindo as promessas feitas ao rei. Sua ressurreição o declarou Filho de Deus com poder. Isso não significa que Jesus tenha se tornado Filho de Deus na ressurreição. Ele já era o Filho eterno. A ressurreição manifestou publicamente sua identidade e confirmou sua vitória sobre a morte.
Nos versículos 5-7, Paulo mostra que tudo isso acontece por meio de Cristo. É dele que recebemos graça e apostolado, e é por meio dele que pessoas de todas as nações são chamadas para pertencer a Cristo. A salvação começa em Deus, é realizada por Cristo e alcança pecadores pela graça.
Nos versículos 8-15, Paulo demonstra seu carinho pelos cristãos de Roma. Ele agradece a Deus pela fé deles, ora por eles e deseja visitá-los. Embora quisesse fortalecê-los, também esperava ser encorajado pela fé deles. Deus usa a comunhão dos santos para fortalecer sua Igreja.
Paulo também afirma que é devedor tanto a gregos como a bárbaros, tanto a sábios como a ignorantes. Não se trata de uma dívida pessoal, mas da responsabilidade recebida com seu ministério. Quem recebeu a graça de Deus também foi chamado para anunciar essa graça.
Chegamos então aos versículos 16-17, o ápice da passagem e a principal chave para compreender toda a Carta aos Romanos. Tudo o que Paulo apresentou até aqui conduz para esses dois versículos. Ele falou do Evangelho de Deus, da promessa feita nas Escrituras, do Filho de Deus, da graça e da missão de anunciar Cristo. Agora ele resume a mensagem: o Evangelho é o poder de Deus para a salvação e nele a justiça de Deus é revelada.
Paulo declara: “Não me envergonho do evangelho.” Roma era o centro de um enorme poder político e militar, enquanto Paulo anunciava um Salvador crucificado. Para muitos, isso parecia fraqueza e vergonha. Paulo, porém, sabia o que realmente existe no Evangelho: “o poder de Deus para a salvação”.
Esse poder não é uma simples oportunidade que Deus coloca diante do homem, esperando para descobrir o que ele fará com ela. É o poder de Deus para salvar. É o mesmo poder que vemos quando Cristo chamou Lázaro para fora da sepultura. Lázaro estava morto e não podia produzir vida em si mesmo. Cristo não ficou diante do túmulo esperando que Lázaro aceitasse o chamado para então ressuscitá-lo. Cristo ordenou, e Lázaro foi ressuscitado.
Essa imagem nos ajuda a compreender a graça. O pecador está espiritualmente morto e precisa receber vida. Por isso, a salvação não começa quando o homem decide abrir seu coração para Deus. Ela começa quando Deus age no coração do homem. Deus dá vida, abre seus olhos e, então, o pecador vem a Cristo.
Isso não significa que a conversão aconteça contra a vontade do pecador. Deus não arrasta para Cristo alguém que continua desejando permanecer em rebelião. Deus transforma o coração, e aquele que antes não queria Cristo passa a desejá-lo. A resposta do pecador é real, mas ela acontece porque Deus realizou primeiro sua obra sobrenatural nele.
Por isso, quando Paulo chama o Evangelho de “poder de Deus para a salvação”, precisamos levar suas palavras a sério. Deus não apenas inicia uma possibilidade de salvação esperando que a vontade humana determine o resultado. Quando Deus quer salvar, sua graça é eficaz. Seus propósitos não podem ser frustrados.
“Eu sei que tudo podes, e nenhum dos teus planos pode ser frustrado.”
(Jó 42:2)
Paulo diz que essa salvação é primeiro do judeu e também do grego. Não existem dois evangelhos ou duas formas de salvação. Existe um único Salvador e uma única justiça. A promessa veio por meio de Israel, mas agora o Evangelho alcança também as nações. O mesmo Cristo salva judeus e gentios, pela mesma graça e pela mesma justiça.
No versículo 17, Paulo apresenta o coração dessa mensagem: “a justiça de Deus se revela no evangelho”. O homem precisa de uma justiça que não possui, e Deus revela no Evangelho exatamente essa justiça.
Aqui precisamos guardar uma distinção fundamental: a fé não é a causa da nossa salvação. A justiça pela qual somos aceitos diante de Deus está em Cristo. A fé é o meio pelo qual recebemos Cristo e sua justiça. Quando Paulo diz que “o justo viverá por fé”, ele está mostrando que o justo vive confiando somente em Cristo e não em si mesmo.
Mas precisamos ir um passo além. Até mesmo essa fé salvadora é dom de Deus. O homem natural pode acreditar em muitas coisas. Pode confiar em uma religião, em suas próprias obras e até mesmo professar algum tipo de fé em Jesus. Isso, porém, não é necessariamente a fé salvadora.
Crer salvificamente é abandonar toda confiança em si mesmo e descansar somente em Cristo. O pecador só abandona completamente a confiança em si mesmo quando Deus abre seus olhos para que ele passe a enxergar a si mesmo como realmente é diante de Deus. Essa fé não nasce naturalmente do coração morto em pecado. Ela é concedida por Deus. O homem natural não produz, por sua própria capacidade, a fé que o leva a confiar somente em Cristo.
Paulo afirma:
“Porque pela graça sois salvos, mediante a fé; e isto não vem de vós; é dom de Deus; não de obras, para que ninguém se glorie.”
(Efésios 2:8-9)
A imagem da mão vazia ajuda a entender. A fé é como uma mão vazia que recebe um presente. Ela não compra o presente, não acrescenta nada ao presente e não o torna mais valioso. Mas uma mão morta não se abre. Antes que o pecador creia, Deus precisa lhe dar vida.
É exatamente o que Paulo explica:
“Ele vos deu vida, estando vós mortos nos vossos delitos e pecados.”
(Efésios 2:1)
Primeiro Deus dá vida, depois o pecador crê. A resposta do homem é real, mas ela acontece porque Deus realizou primeiro sua obra sobrenatural no coração. A fé não causa a regeneração. A regeneração produz a fé.
Por isso, não confiamos na nossa fé como se ela fosse a causa da nossa salvação. Quem salva é Cristo. A fé simplesmente descansa somente nele. Uma fé forte não torna Cristo mais suficiente, e uma fé fraca não torna Cristo menos suficiente. Nossa esperança não está na força da nossa fé, mas na pessoa e na obra suficiente de Jesus.
Assim, a fé salvadora não é uma contribuição humana acrescentada à obra de Cristo. A cruz não precisa ser completada pelo homem. Ela é perfeita e suficiente em si mesma para salvar, não apenas para tornar a salvação possível. Nós cremos porque Deus, por sua graça, nos conduz a descansar em uma obra que já é suficiente.
Essa verdade também mostra por que a graça de Deus não falha em seu propósito. Aquilo que Deus começa, ele mesmo conduz até o fim. A salvação não depende de uma capacidade humana que pode frustrar o propósito de Deus. Deus salva, sustenta e conduz os seus até o fim.
Por isso, Romanos 1:16-17 deve permanecer diante dos nossos olhos durante toda a leitura da carta. Quando Paulo falar sobre pecado, condenação, Lei, obras, fé, justificação, santificação e esperança, precisamos voltar a essa chave: o homem precisa de uma justiça que não consegue produzir, Deus revela essa justiça no Evangelho, Cristo a cumpriu perfeitamente e o pecador é salvo pela graça, mediante a fé somente em Cristo.
Essa chave também impede que entendamos Romanos como uma tentativa de ensinar o homem a construir sua própria justiça. Romanos mostra a justiça de Deus revelada no Evangelho, realizada em Cristo e recebida pela fé. A cruz é suficiente, Cristo é suficiente, a graça é eficaz e toda a glória pertence a Deus.
E agora surge a pergunta que Paulo começará a responder na próxima passagem: por que o homem precisa tanto dessa justiça que não consegue produzir por si mesmo? A partir daí, Paulo começa a expor a verdadeira condição do homem diante de Deus.
• O Evangelho pertence a Deus. A salvação não nasceu da iniciativa humana. Deus planejou, prometeu e realizou a redenção em Cristo.
• Toda a Bíblia aponta para Cristo. O Evangelho foi prometido desde o princípio e encontrou seu cumprimento em Jesus.
• A cruz é suficiente. Cristo não fez apenas uma parte da salvação. Sua obra redentora é perfeita e suficiente.
• Nossa fé deve estar somente em Cristo. Não confiamos na nossa fé, nas nossas obras ou em nossa capacidade, mas somente em Cristo e em sua obra.
• A fé não é mérito humano. Ela é o meio pelo qual recebemos Cristo e sua justiça, mas até mesmo essa fé é fruto da graça de Deus. O homem natural está morto em seus pecados e precisa primeiro receber vida.
• Tudo o que temos de bom vem de Deus. Nossa fé, perseverança e frutos são resultado da graça operando em nós.
• Romanos 1:16-17 é a chave da carta. O pecado revela nossa necessidade, a Lei expõe nossa culpa e o Evangelho revela a justiça que Deus provê em Cristo. O justo vive pela fé somente em Cristo.
18 A ira de Deus se revela do céu contra toda impiedade e perversão dos homens que detêm a verdade pela injustiça;
19 porquanto o que de Deus se pode conhecer é manifesto entre eles, porque Deus lhes manifestou.
20 Porque os atributos invisíveis de Deus, assim o seu eterno poder, como também a sua própria divindade, claramente se reconhecem, desde o princípio do mundo, sendo percebidos por meio das coisas que foram criadas. Tais homens são, por isso, indesculpáveis;
21 porquanto, tendo conhecimento de Deus, não o glorificaram como Deus, nem lhe deram graças; antes, se tornaram nulos em seus próprios raciocínios, obscurecendo-se-lhes o coração insensato.
22 Inculcando-se por sábios, tornaram-se loucos
23 e mudaram a glória do Deus incorruptível em semelhança da imagem de homem corruptível, bem como de aves, quadrúpedes e répteis.
24 Por isso, Deus entregou tais homens à imundícia, pelas concupiscências de seu próprio coração, para desonrarem o seu corpo entre si;
25 pois eles mudaram a verdade de Deus em mentira, adorando e servindo a criatura em lugar do Criador, o qual é bendito eternamente. Amém!
26 Por causa disso, os entregou Deus a paixões infames; porque até as mulheres mudaram o modo natural de suas relações íntimas por outro, contrário à natureza;
27 semelhantemente, os homens também, deixando o contato natural da mulher, se inflamaram mutuamente em sua sensualidade, cometendo torpeza, homens com homens, e recebendo, em si mesmos, a merecida punição do seu erro.
Nos versículos 18-20, Paulo começa dizendo que a ira de Deus se revela contra toda impiedade e injustiça dos homens que detêm a verdade pela injustiça.
A palavra “detêm” é fundamental para entendermos essa passagem. A ideia é de segurar, reprimir, impedir que a verdade ocupe o lugar que deveria ter. O homem recebe uma revelação verdadeira sobre Deus, mas, por causa do pecado, não responde a essa verdade com adoração e submissão. Ele conhece a verdade, mas a reprime.
Podemos imaginar uma bola sendo empurrada para dentro de uma piscina. Enquanto alguém a mantém debaixo da água, ela permanece submersa, mesmo tendo uma força que a faz voltar à superfície. De maneira semelhante, a verdade de Deus está diante do homem, mas seu coração pecador resiste a essa verdade e tenta mantê-la debaixo da própria vontade.
Isso nos ajuda a entender o que Paulo quer dizer quando fala sobre a ira de Deus. A ira aqui não aparece somente como um castigo futuro. Nos versículos 24, 26 e 28, Paulo repete uma expressão muito séria: “Deus os entregou”.
Essa entrega é uma forma de juízo. Deus permite que o homem siga cada vez mais os desejos do seu próprio coração. O pecador não precisa ser empurrado para o pecado. Ele já deseja o pecado. Deus, em seu justo juízo, pode retirar determinadas restrições e permitir que ele avance no caminho que voluntariamente escolheu.
É aqui que podemos entender melhor o que significa Deus entregar alguém aos seus próprios desejos. Imagine um leão preso por uma corrente, diante de um pedaço de carne. A corrente impede que ele avance até onde gostaria. À medida que a corrente é afrouxada, o leão segue naturalmente em direção à carne. E não apenas caminha tranquilamente. Ele pode lutar com toda a força contra a corrente, tentando alcançar mais e mais carne.
O leão não olha para a salada com o mesmo desejo. Ele deseja a carne porque sua natureza é de leão. Ele não se tornou leão porque comeu carne. Ele come carne porque é leão.
Essa ilustração ajuda a compreender o endurecimento e a entrega judicial descritos nas Escrituras. Deus não precisa colocar maldade dentro do coração do pecador para que ele peque. À medida que Deus retira determinadas restrições, o homem manifesta aquilo que já existe em seu coração. Ele corre voluntariamente para aquilo que deseja.
Por isso, quando Paulo diz que Deus “os entregou”, não devemos imaginar que Deus pegou pessoas moralmente neutras e colocou pecado dentro delas. O homem já está em rebelião. Deus não produz o pecado no coração do pecador, mas pode entregá-lo judicialmente aos desejos pecaminosos que já existem nele.
Isso também esclarece a relação entre pecado e natureza. Não somos pecadores porque pecamos. Pecamos porque somos pecadores. Nossos atos pecaminosos são o fruto de uma natureza já corrompida.
Uma árvore não se torna uma determinada espécie porque começou a produzir determinado fruto. Ela produz aquele fruto porque é daquela espécie. Da mesma forma, o homem não se torna pecador no momento em que comete seu primeiro pecado. Ele peca porque já nasceu com uma natureza pecaminosa.
Para entender por que o homem chegou a essa condição, precisamos voltar para Gênesis 3.
Deus criou Adão e Eva em retidão. Eles não foram criados pecadores e, naquele estado original, seu arbítrio não estava escravizado ao pecado. Deus lhes deu uma ordem clara, e sua responsabilidade era verdadeira. Havia diante deles uma escolha real, e Deus havia advertido sobre as consequências da desobediência.
"mas da árvore do conhecimento do bem e do mal não comerás; porque, no dia em que dela comeres, certamente morrerás."
(Gênesis 2:17)
Adão escolheu desobedecer e, a partir daí, o pecado entrou na humanidade e trouxe a morte. O homem não apenas se tornou mortal, mas sua natureza foi corrompida pelo pecado. Seu coração passou a produzir pensamentos, desejos e escolhas contaminados pelo pecado.
Aqui precisamos fazer uma distinção importante. O homem tem arbítrio, mas ele não é livre. Desde o ventre, seu arbítrio está escravizado ao pecado. A palavra arbítrio indica que o homem pensa, deseja, escolhe e toma decisões. Ele não é uma máquina e não age sem vontade. Porém, depois da queda, sua vontade passou a ser escrava do pecado, de modo que suas escolhas são reais e voluntárias, mas sempre acontecem de acordo com a natureza pecaminosa que domina seu coração.
Isso é importante porque a escravidão do pecado não significa que alguém seja arrastado para o pecado contra sua vontade. O homem peca porque quer pecar. Seu problema é justamente que seus desejos estão contaminados. Ele escolhe voluntariamente aquilo que deseja, mas seus desejos não são moralmente neutros.
O exemplo do leão nos ajuda novamente. Quando a corrente é afrouxada, o leão não precisa receber uma nova natureza para correr em direção à carne. Ele simplesmente manifesta aquilo que já é. Da mesma forma, Deus não precisa colocar um novo desejo pecaminoso dentro do homem quando o entrega aos seus desejos. O homem já deseja o pecado.
Por isso, não devemos imaginar o homem natural como alguém completamente neutro, parado entre Deus e o pecado, podendo simplesmente decidir qual dos dois prefere. O homem possui arbítrio, mas seu arbítrio é escravo do pecado.
Isso também explica por que até mesmo uma pessoa não regenerada pode realizar determinadas ações exteriormente boas. Ela pode ajudar alguém, cuidar dos filhos, trabalhar honestamente ou demonstrar generosidade. Porém, isso não significa que seu coração tenha sido reconciliado com Deus. O problema não está somente naquilo que a mão faz, mas no coração que move a mão.
A pessoa pode fazer algo exteriormente correto por amor à família, consciência, medo das consequências, desejo de reconhecimento ou interesse pessoal. Isso demonstra que Deus ainda restringe o pecado e governa a vida humana. Porém, restrição do pecado não é regeneração.
Nos versículos 19-20, Paulo explica que aquilo que pode ser conhecido de Deus foi manifestado aos homens. A criação revela o Criador. O poder eterno e a divindade de Deus podem ser percebidos por meio das coisas criadas.
Portanto, existe uma revelação real de Deus diante de todos os homens. A criação testemunha que Deus existe e que o homem lhe deve honra. Por isso, Paulo conclui que o homem é indesculpável.
Mas precisamos fazer uma distinção importante. A revelação geral não é o Evangelho. A criação revela o Criador, mas não apresenta, por si mesma, a mensagem completa da salvação em Cristo. Romanos 1:16-17 já havia mostrado que o Evangelho é o poder de Deus para a salvação e que nele a justiça de Deus é revelada.
Assim, ninguém pode dizer: “Eu não tinha nenhuma revelação de Deus”. A criação testemunha sobre Deus e torna o homem responsável. Porém, para salvar o pecador, Deus precisa realizar uma obra muito maior no coração.
A existência dessa revelação também explica por que o homem continua tendo consciência moral. A queda não apagou completamente a capacidade humana de perceber que certas coisas são certas e outras são erradas. O homem pode sentir culpa, reconhecer uma injustiça e perceber que determinada atitude é má.
Um exemplo aparece em Gênesis 4, na história de Caim. Deus advertiu Caim sobre o pecado que estava à porta e lhe deu uma ordem clara:
"eis que o pecado jaz à porta; o seu desejo será contra ti, mas a ti cumpre dominá-lo."
(Gênesis 4:7)
Caim sabia o que deveria fazer. A ordem de Deus era clara. O problema não estava na ordem, mas no coração de Caim. Mesmo advertido, ele alimentou sua ira e matou Abel.
Isso nos ensina uma verdade importante: a ordem de Deus revela o dever do homem, mas a ordem, por si mesma, não transforma o coração do homem.
Podemos fazer esse mesmo paralelo conosco. É fácil olhar para Caim e pensar: “Como ele conseguiu matar o próprio irmão?”. Mas o mesmo Deus que ordenou a Caim não matar também nos ordena. Deus diz: “não matarás”, e mesmo que nunca tenhamos cometido um homicídio, todos nós já conhecemos a ira, o ódio e o desejo de que alguém sofresse. Deus diz: “não adulterarás”, e todos nós precisamos reconhecer que pensamentos e desejos impuros podem surgir dentro do coração.
Não somos melhores do que Caim simplesmente porque nossos pecados não chegaram à mesma manifestação externa. O homem natural costuma olhar horizontalmente, comparar uma pessoa pecadora com outra e concluir: “Eu sou melhor”. A Lei de Deus, porém, olha muito mais profundamente. Ela revela não apenas aquilo que fazemos, mas aquilo que existe em nosso coração.
Por isso, Caim não é apenas alguém que devemos condenar. Ele também nos mostra a seriedade da natureza humana caída. A diferença é que Deus pode restringir nossos pecados e, pela graça, pode transformar nosso coração.
Essa transformação é exatamente aquilo que Deus promete em outras partes das Escrituras. Em Deuteronômio 10:16, Deus ordena que seu povo circuncide o coração. Em Deuteronômio 30:6, o próprio Deus promete realizar essa obra. Em Ezequiel 36:26-27, Deus promete dar um coração novo e colocar dentro do seu povo o seu Espírito.
Aqui aparece um princípio importante: Deus estabelece o fim e também providencia os meios para alcançá-lo. Ele ordena arrependimento e fé, mas também realiza soberanamente a obra pela qual o pecador recebe um novo coração e passa a desejar aquilo que antes rejeitava.
Um morto não consegue ressuscitar a si mesmo. Podemos ordenar que ele se levante, explicar como deveria se levantar e mostrar alguém andando diante dele. Nada disso produz vida. Primeiro ele precisa receber vida. Depois poderá se levantar.
É assim que devemos compreender a necessidade do novo nascimento. O homem está morto em seus delitos e pecados (Efésios 2:1). Ele precisa ser vivificado por Deus. Quando Deus regenera o pecador, muda seu coração, seus afetos e suas disposições. Então ele passa a responder voluntariamente a Deus.
A graça não transforma o pecador em uma máquina. Deus não violenta sua vontade, ele transforma sua vontade. Aquele que antes não queria Cristo passa a querer Cristo. Aquele que antes confiava em si mesmo passa a perceber sua própria incapacidade e a descansar somente no Salvador.
Nos versículos 21-23, Paulo começa a mostrar como o homem responde à revelação recebida. Embora conheça a Deus, não o glorifica como Deus nem lhe dá graças. O conhecimento existe, mas o coração não responde corretamente.
Aqui aparece uma progressão. O homem conhece a verdade, mas a reprime; reconhece o Criador, mas não o glorifica; abandona a adoração verdadeira e troca o Criador pela criatura.
É importante entender que rejeitar a Deus não significa necessariamente afirmar com a boca: “Deus não existe”. Alguns fazem isso, mas a rejeição pode acontecer de outras maneiras. O homem pode reconhecer que Deus existe e, ainda assim, viver como se Deus não tivesse autoridade sobre sua vida.
Ele pode conhecer a Bíblia, participar de uma religião, falar sobre Deus e até defender algumas verdades bíblicas, mas continuar confiando em si mesmo. Pode saber que Deus é Senhor e, ao mesmo tempo, viver como se o senhor da própria vida fosse ele.
Portanto, a questão central não é apenas aquilo que o homem declara com os lábios, mas quem governa o seu coração.
Isso também explica por que Romanos 1 está profundamente ligado a Gênesis 3. Em Gênesis, o homem rejeita a palavra de Deus, acredita na mentira e deseja determinar seu próprio caminho. Em Romanos 1, Paulo começa a mostrar os frutos dessa mesma rebelião.
Gênesis 3 apresenta a raiz, e Romanos 1 começa a mostrar os frutos.
O problema continua sendo o mesmo: a criatura querendo ocupar o lugar que pertence ao Criador.
Nos versículos 24-25, Paulo apresenta a primeira declaração de que Deus os entregou às paixões de seus próprios corações. Isso não é abandono da soberania de Deus. É justamente uma manifestação dela em forma de juízo.
Deus pode restringir determinados pecados por meio da consciência, das autoridades, das consequências e de outras formas de sua providência. Essas restrições impedem que o pecado se manifeste em toda a sua extensão. Quando essas restrições são diminuídas, o homem não passa a ser pecador naquele momento. Ele apenas manifesta com maior intensidade aquilo que já existe em seu coração.
É exatamente aqui que a ilustração do leão ajuda novamente. A corrente não cria o desejo pela carne. Ela apenas impede que o leão avance até onde deseja. Quando a corrente é afrouxada, o leão corre em direção à carne porque continua sendo leão.
Da mesma forma, quando Deus entrega o homem aos seus desejos, Deus não cria uma nova natureza pecaminosa. Ele permite que a natureza que já existe se manifeste com maior liberdade. O homem continua responsável porque continua querendo aquilo que faz.
O mesmo princípio aparece no endurecimento de Faraó. Deus permaneceu soberano sobre Faraó, mas Faraó continuou responsável por sua própria rebelião. Deus não precisou criar o mal no coração de Faraó para julgá-lo.
Nos versículos 26-27, Paulo mostra uma manifestação dessa entrega na desordem sexual. Ele apresenta comportamentos que violam a ordem estabelecida pelo próprio Criador.
O ponto de Paulo não é apresentar o comportamento como se ele fosse a raiz de todo o problema. O comportamento é fruto de uma rebelião mais profunda contra Deus. Antes de aparecer no comportamento, existe uma rejeição da autoridade do Criador.
Por isso, a sequência de Romanos 1 é importante: Deus se revela, o homem conhece, reprime a verdade, deixa de glorificar a Deus, troca o Criador pela criatura, Deus o entrega aos desejos do coração e esses desejos passam a produzir manifestações cada vez mais profundas do pecado.
Essa sequência nos mostra que o problema do homem não é apenas falta de informação. Ele conhece, mas resiste. Ele percebe, mas não quer se submeter. Ele possui consciência, mas não consegue transformar seu próprio coração.
É por isso que a solução precisa ser maior do que uma simples mudança de comportamento. O homem não precisa apenas aprender a controlar algumas ações. Ele precisa de um novo coração.
Antes da regeneração, o homem possui arbítrio real, mas seu arbítrio é escravo do pecado. Ele escolhe voluntariamente aquilo que deseja, e seus desejos estão corrompidos. Depois da regeneração, Deus muda o coração e os afetos. O pecador passa a desejar Cristo, arrepender-se do pecado e buscar obedecer a Deus.
Isso não elimina a responsabilidade humana. Pelo contrário, torna ainda mais clara a diferença entre causa e fruto. Deus é quem realiza a obra da regeneração, e o homem realmente crê, arrepende-se e obedece como fruto dessa graça.
Paulo, portanto, não está dizendo simplesmente que algumas pessoas fazem coisas ruins. Ele está mostrando a condição do homem depois da queda. O pecado não está apenas nas mãos, nos olhos ou na boca. O pecado alcança o coração, os desejos, os pensamentos e a vontade.
E isso nos leva novamente ao início da passagem. O homem detém a verdade pela injustiça. A verdade está diante dele, a criação aponta para Deus, a consciência testemunha sobre o certo e o errado, mas o coração pecador resiste ao governo do Criador.
A ira de Deus, então, aparece também quando Deus entrega o homem a si mesmo, permitindo que ele siga aquilo que seu próprio coração deseja. O juízo revela a gravidade do pecado, porque o homem descobre que viver longe de Deus não produz liberdade verdadeira. Produz escravidão cada vez mais profunda aos próprios desejos.
Por isso, Romanos 1:18-27 nos conduz à necessidade de uma obra soberana de Deus. O homem precisa mais do que informação. Precisa de vida. Precisa mais do que uma ordem. Precisa de um novo coração. Precisa mais do que conhecer a verdade. Precisa ser transformado pela graça.
E somente então entendemos por que o Evangelho apresentado em Romanos 1:16-17 é tão necessário. O homem não consegue produzir a justiça que Deus exige. Deus realiza a salvação em Cristo e transforma soberanamente o pecador para que ele abandone a confiança em si mesmo e descanse somente em Cristo.
• A criação revela o Criador, mas não salva. A revelação geral torna Deus conhecido de maneira suficiente para responsabilizar o homem, mas não apresenta o Evangelho de Cristo. A criação aponta para Deus; a Escritura anuncia Cristo.
• A Palavra revela nosso dever e expõe nossa rebelião. A ordem dada a Caim mostra aquilo que Deus exige, enquanto sua desobediência revela o problema do coração. A Lei ilumina o pecado, mas não pode regenerar o coração.
• O homem tem arbítrio, mas seu arbítrio é escravo do pecado. O homem pensa, deseja, escolhe e age voluntariamente, por isso continua responsável por suas decisões. Porém, depois da queda, sua vontade está escravizada ao pecado. Não somos pecadores porque pecamos; pecamos porque somos pecadores.
• “Deus os entregou” é também linguagem de juízo. Deus pode retirar parte de sua contenção e permitir que o pecador avance no caminho que voluntariamente escolheu. Como o leão que, com a corrente afrouxada, corre em direção à carne, o homem manifesta aquilo que já existe em seu coração. Deus permanece soberano, enquanto o homem continua responsável por sua rebelião.
• Somente a graça transforma o coração. Revelação, consciência, mandamentos e advertências podem mostrar o pecado, mas não produzem o novo nascimento. Deus dá vida ao pecador, muda seus afetos e sua vontade, conduzindo-o a Cristo. A fé, o arrependimento e a obediência são frutos dessa graça.
• Nossa esperança está somente em Cristo. O homem não consegue produzir em si mesmo a justiça que Deus exige. Deus realiza a salvação em Cristo e faz o pecador abandonar a confiança em si mesmo para descansar somente no Salvador.