A Carta aos Romanos é uma das mais importantes exposições do Evangelho em todo o Novo Testamento. Paulo apresenta questões fundamentais da fé cristã e conduz seus leitores por uma sequência de perguntas que alcançam o próprio coração da mensagem do Evangelho.
Por que o homem precisa ser salvo? Qual é a sua verdadeira condição diante de Deus? Como podemos ser considerados justos diante dele? Qual é o lugar da Lei, da fé e da graça? O que a obra de Cristo significa para o pecador? E como o Evangelho deve transformar a vida daqueles que foram alcançados por ele?
Romanos merece ser estudada com atenção porque Paulo não trata essas questões de maneira isolada. Ele desenvolve um argumento amplo e cuidadosamente construído. Ao longo dos nossos estudos, acompanharemos esse argumento passo a passo, permitindo que o próprio texto conduza nossa compreensão.
Paulo escreveu Romanos por volta dos anos 56 a 58 d.C., durante sua terceira viagem missionária, provavelmente enquanto estava em Corinto. A carta foi escrita em grego, língua amplamente utilizada no Império Romano.
Roma era a capital do Império e uma das cidades mais importantes do mundo. O período da chamada Pax Romana proporcionava relativa estabilidade política, segurança nas estradas e intensa circulação de pessoas e mercadorias, criando condições favoráveis para viagens e comunicação entre diferentes regiões. Ao mesmo tempo, o Império exercia forte controle sobre seus povos.
Durante o governo do imperador Cláudio, por volta de 49 d.C., os judeus foram expulsos de Roma. Lucas registra que Áquila e Priscila estavam entre os judeus que deixaram a cidade por causa desse decreto (Atos 18:1-2). Quando muitos judeus retornaram após a morte de Cláudio, encontraram uma igreja que havia crescido principalmente entre os gentios. Esse contexto contribuiu para diferentes perspectivas e tensões dentro da própria comunidade cristã.
Não sabemos exatamente quem iniciou a igreja de Roma. Uma possibilidade é que a comunidade cristã tenha surgido por meio de judeus e prosélitos romanos que estiveram em Jerusalém no dia de Pentecostes. Lucas menciona “forasteiros romanos” entre aqueles que estavam presentes naquele dia, e é possível que alguns tenham levado a mensagem do Evangelho de volta para Roma.
A igreja de Roma era formada por judeus e gentios. Entre os cristãos de origem judaica, havia o perigo de alguns colocarem sua confiança na Lei, na circuncisão e nos privilégios recebidos.
Ao mesmo tempo, entre os cristãos de origem gentílica, havia o perigo de alguns ultrapassarem os limites bíblicos da graça e tratarem o pecado com indiferença.
Diante disso, Paulo precisava tratar de dois perigos que apontavam em direções opostas:
• De um lado, a confiança na Lei e nos privilégios religiosos.
• De outro, a transformação da graça em uma desculpa para o pecado.
Questões relacionadas à circuncisão, aos alimentos, aos dias especiais, à Lei, à liberdade cristã e à consciência podiam gerar julgamentos e conflitos entre os irmãos.
Como judeus e gentios deveriam compreender a Lei, os costumes e as tradições à luz do Evangelho?
Como deveriam lidar com suas diferenças?
Como a verdadeira mensagem do Evangelho deveria orientar a vida de todos eles?
Paulo ainda não havia visitado Roma quando escreveu a carta. Entre seus objetivos estavam fortalecer aquela igreja, promover a unidade entre judeus e gentios, apresentar de maneira organizada o Evangelho que anunciava e preparar o caminho para sua futura missão até a Espanha.
É nesse contexto que Paulo escreve aos cristãos de Roma. Mas, ao tratar dessas questões, ele nos conduz a uma pergunta ainda mais profunda.
Como um Deus perfeitamente santo e justo pode perdoar pecadores que realmente são culpados?
Deus é santo. Deus é justo. Deus é misericordioso.
Deus não ignora a sua Lei nem trata o pecado como algo sem importância. Ao mesmo tempo, o Evangelho anuncia salvação, perdão e reconciliação com Deus.
Como essas verdades podem estar perfeitamente de acordo?
Essa é uma das grandes questões que encontraremos ao longo da carta.
Paulo nos conduzirá por essas questões à medida que desenvolve seu argumento, e será no próprio texto que encontraremos as respostas.
Nos capítulos 1 a 3, encontraremos a apresentação da condição humana e da necessidade do Evangelho.
Nos capítulos 3 a 5, Paulo desenvolverá questões relacionadas à justiça diante de Deus e à salvação.
Nos capítulos 6 a 8, veremos as implicações do Evangelho para a vida daquele que pertence a Cristo.
Nos capítulos 9 a 11, Paulo tratará das questões relacionadas a Israel, às promessas de Deus e ao desenvolvimento da história da redenção.
Nos capítulos 12 a 16, veremos as implicações práticas do Evangelho para a vida cristã, para a Igreja e para os relacionamentos.
Esse é apenas o mapa da nossa caminhada. As respostas ainda precisam ser descobertas no texto.
Logo no início, Paulo apresenta o Evangelho como o grande tema de sua carta:
"Pois não me envergonho do evangelho, porque é o poder de Deus para a salvação de todo aquele que crê, primeiro do judeu e também do grego; visto que a justiça de Deus se revela no evangelho, de fé em fé, como está escrito: O justo viverá por fé."
(Romanos 1:16-17)
Essas palavras serão o ponto de partida da nossa caminhada. A partir delas, acompanharemos Paulo enquanto ele desenvolve seu argumento, passagem após passagem, deixando que a própria Palavra de Deus nos conduza.
Não vamos simplesmente estudar temas de Romanos. Vamos acompanhar o raciocínio de Paulo.
Agora, com a Bíblia aberta, começa a nossa caminhada.
SOLI DEO GLORIA.