Estudos Sistemáticos
DISCERNIMENTO E APOLOGÉTICA
DISCERNIMENTO E APOLOGÉTICA
Muitos de nós vivemos experiências intensas em ambientes religiosos e aprendemos a interpretar emoções, manifestações e acontecimentos como evidência da presença de Deus. Por isso, quando começamos a enxergar determinadas coisas à luz das Escrituras, é natural surgir a dúvida: "Será que aquilo era Deus? Será que eu senti a presença de Deus? Será que aquela manifestação realmente veio do Espírito Santo?"
A resposta precisa começar por uma verdade fundamental: não podemos usar a nossa própria experiência como instrumento para julgar a verdade. O instrumento que Deus nos deu para avaliar experiências, mensagens, ensinamentos, manifestações e aqueles que dizem falar em seu nome é a própria Palavra de Deus, não o nosso coração, a nossa emoção, o arrepio, o choro, a sensação de presença ou aquilo que sentimos durante uma reunião.
"Enganoso é o coração, mais do que todas as coisas, e desesperadamente corrupto; quem o conhecerá?"
(Jeremias 17:9)
Somos pecadores. Nossa percepção pode falhar, nossas emoções podem nos enganar e nossas inferências podem estar erradas. Podemos interpretar completamente equivocadamente uma experiência e ainda assim ter absoluta convicção de que estamos certos. Por isso, se colocarmos o nosso coração como juiz da verdade, estaremos usando um instrumento falível para avaliar aquilo que é verdadeiro.
Deus não erra, não mente e não se contradiz. Aquilo que ele revelou nas Escrituras é o padrão seguro pelo qual devemos avaliar todas as coisas.
"À lei e ao testemunho! Se eles não falarem desta maneira, jamais verão a alva."
(Isaías 8:20)
É por isso que João não nos manda acreditar em qualquer experiência espiritual, mas examinar aquilo que se apresenta como vindo de Deus. A própria existência de falsos profetas torna esse discernimento necessário. Não basta alguém afirmar que fala em nome de Deus, precisamos verificar se aquilo realmente procede de Deus.
"Amados, não deis crédito a qualquer espírito; antes, provai os espíritos se procedem de Deus, porque muitos falsos profetas têm saído pelo mundo fora."
(1 João 4:1)
Paulo estabelece o mesmo princípio: "Julgai todas as coisas, retende o que é bom." Portanto, não somos chamados a acreditar primeiro e questionar depois. Somos chamados a provar. A fé cristã não é uma fé que teme a investigação bíblica. Pelo contrário, é uma fé que submete tudo à autoridade da Palavra.
"Julgai todas as coisas, retende o que é bom."
(1 Tessalonicenses 5:21)
Por isso, uma experiência extraordinária nunca pode ser considerada, por si só, uma prova da presença de Deus. Arrepio, choro, coração acelerado, tremores, quedas, gritos, sensação de calor, emoção intensa, sensação de "presença" ou qualquer outra manifestação física ou emocional, nada disso, por si só, é prova da presença de Deus. Isso não significa que emoções sejam sempre falsas, pois somos seres emocionais e podemos ser profundamente tocados pela verdade, pela adoração, pela pregação da Palavra ou por uma lembrança. O problema acontece quando transformamos a emoção em autoridade.
O critério não é o que sentimos. O critério é o que Deus disse.
Não basta saber que uma experiência não é suficiente para provar que Deus está agindo. Precisamos agora entender qual é o critério bíblico para discernir aquilo que realmente procede de Deus. E a própria Escritura mostra que sinais, prodígios, experiências extraordinárias e manifestações não podem ocupar o lugar da verdade que Deus já revelou.
Isso aparece de maneira muito forte em Deuteronômio 13. O Senhor apresenta uma situação em que um profeta ou sonhador poderia anunciar um sinal ou prodígio, e esse sinal poderia até acontecer. Mesmo assim, se aquela pessoa conduzisse o povo para longe do Senhor, o povo não deveria segui-la.
"Quando profeta ou sonhador se levantar no meio de ti e te anunciar um sinal ou prodígio, e suceder o tal sinal ou prodígio de que te houver falado [...] e disser: Vamos após outros deuses [...] não ouvirás as palavras desse profeta ou sonhador."
(Deuteronômio 13:1-3)
O sinal não era o critério final. O critério era a fidelidade ao Senhor e àquilo que ele já havia revelado. Isso é fundamental porque mostra que, biblicamente, um acontecimento extraordinário nunca deve ser colocado acima da verdade revelada por Deus. O fato de alguma coisa impressionante ter acontecido não encerra a investigação. Pelo contrário, precisamos olhar para aquilo que está sendo ensinado e para onde aquela manifestação está conduzindo as pessoas.
Deuteronômio 13 nos ensina que a autenticidade de uma mensagem não é determinada pelo poder aparente do sinal, mas pela fidelidade daquele que fala ao Deus que já se revelou. O sobrenatural, por si só, não autentica uma mensagem. Uma manifestação extraordinária não transforma uma mentira em verdade, um sinal não transforma um falso mestre em verdadeiro e uma experiência intensa não transforma uma doutrina errada em doutrina verdadeira.
Por isso, a ideia de que "se aconteceu alguma coisa extraordinária, então Deus estava ali" não pode ser aceita. Não necessariamente. A pergunta não é apenas se alguma coisa extraordinária aconteceu, mas se aquilo está de acordo com aquilo que Deus já revelou e para onde aquela mensagem está conduzindo as pessoas.
Jesus apresenta uma advertência ainda mais séria em Mateus 7. Ele fala de pessoas que chegariam diante dele dizendo:
"Senhor, Senhor! Porventura, não temos nós profetizado em teu nome, e em teu nome não expelimos demônios, e em teu nome não fizemos muitos milagres?"
(Mateus 7:22)
A resposta de Cristo é contundente:
"Então, lhes direi explicitamente: nunca vos conheci. Apartai-vos de mim, os que praticais a iniquidade."
(Mateus 7:23)
Prestem muita atenção aqui: essas pessoas usavam o nome de Jesus, profetizavam, expulsavam demônios e afirmavam realizar milagres, mas ainda assim estavam em iniquidade e não eram reconhecidas por Cristo como seus. Jesus não tratou as manifestações como prova de salvação. O critério não era aquilo que faziam em nome dele, mas a relação verdadeira com ele.
Isso mostra que é possível encontrar pessoas falando sobre Deus, usando o nome de Cristo, ocupando posições religiosas e até mesmo apresentando manifestações extraordinárias, mas estando completamente erradas quanto ao evangelho. É possível encontrar pessoas falando de salvação e, ao mesmo tempo, ensinando outras pessoas a confiarem nas próprias obras. É possível encontrar pessoas falando de Cristo e, ao mesmo tempo, colocando ritos, regras, méritos humanos e sinais externos como condição para alguém ser aceito por Deus. É possível encontrar pessoas falando muito sobre Deus e, ao mesmo tempo, não reconhecendo a gravidade do pecado e a completa incapacidade do homem de salvar a si mesmo.
"Pois pela graça sois salvos, mediante a fé; e isto não vem de vós; é dom de Deus; não de obras, para que ninguém se glorie."
(Efésios 2:8-9)
"Pois todos pecaram e carecem da glória de Deus."
(Romanos 3:23)
O verdadeiro evangelho não nos ensina a confiar em nossas obras, em ritos, em méritos humanos ou em qualquer experiência religiosa. Nós precisamos de Cristo. Não precisamos acrescentar alguma coisa à cruz, precisamos confiar naquilo que Cristo já realizou. Não precisamos encontrar segurança em manifestações, mas na obra perfeita daquele que morreu e ressuscitou por nós.
"Concluímos, pois, que o homem é justificado pela fé, independentemente das obras da lei."
(Romanos 3:28)
O problema não é apenas fazer coisas em nome de Jesus. A questão é pertencer verdadeiramente a Cristo e confiar somente nele.
Aqui precisamos tratar de uma prática muito comum nesses ambientes: a utilização de versículos ou passagens escolhidas ou sorteadas aleatoriamente para supostamente transmitir uma mensagem vinda de Deus. A pessoa abre a Bíblia, encontra um texto e, sem considerar o contexto, começa a tratá-lo como se Deus estivesse falando diretamente com alguém naquele momento. Como estão utilizando a própria Bíblia, isso acaba dando a impressão de que aquilo possui fundamentação bíblica e, a partir daí, surgem "promessas", "revelações" e "profecias" sobre a vida daquela pessoa.
Mas a Bíblia não foi dada para ser utilizada dessa maneira. A Escritura não é um livro de sorteio de mensagens pessoais. Não abrimos a Bíblia aleatoriamente para descobrir o que Deus supostamente quer dizer especificamente sobre nosso futuro, nossa enfermidade, nosso emprego, nossa família ou qualquer outra circunstância particular. A Bíblia foi dada para revelar aquilo que Deus realmente quis comunicar ao seu povo.
"E, começando por Moisés, discorrendo por todos os Profetas, expunha-lhes o que a seu respeito constava em todas as Escrituras."
(Lucas 24:27)
A Escritura não nasceu da vontade do homem. Sua origem está em Deus. Por isso, quando lemos a Bíblia, nosso objetivo não é fazer o texto dizer aquilo que desejamos ouvir, mas compreender aquilo que Deus realmente revelou. Não somos nós que damos uma nova mensagem ao texto. É o texto que corrige aquilo que pensamos.
"Sabendo, primeiramente, isto: que nenhuma profecia da Escritura provém de particular elucidação; porque nunca jamais qualquer profecia foi dada por vontade humana, entretanto, homens falaram da parte de Deus, movidos pelo Espírito Santo."
(2 Pedro 1:20-21)
Por isso, precisamos compreender cada texto dentro do seu contexto, considerando quem escreveu, para quem escreveu, qual era a situação, qual é o assunto da passagem e como ela se relaciona com o restante das Escrituras. Não podemos simplesmente retirar uma frase do contexto e transformá-la em uma mensagem particular de Deus.
Por exemplo, alguém pode encontrar a passagem em que Davi derrota Golias e começar a dizer: "Assim como Davi venceu o gigante, Deus está dizendo que você também vai vencer o seu gigante. Deus vai derrubar seu desemprego, sua enfermidade, sua dívida, seu problema familiar." Mas onde o texto diz isso? Davi não é uma promessa particular de que todo cristão vencerá seus problemas da mesma maneira. Aquela passagem possui contexto, personagens, propósito e lugar dentro da história da redenção.
Não podemos transformar uma narrativa bíblica em uma promessa individual simplesmente porque encontramos alguma semelhança entre o texto e o nosso problema. Fazer isso não é interpretar a Escritura, é colocar no texto uma mensagem que ele não pretende ensinar.
O problema se torna ainda mais grave quando, depois de retirar uma passagem do contexto, a pessoa começa a falar na primeira pessoa, como se fosse o próprio Deus: "Eu vou fazer", "Eu vou abrir", "Eu vou curar", "Eu vou restaurar", "Eu estou dizendo que..." Nesse momento, ela não está apenas interpretando a Bíblia de maneira equivocada, está assumindo uma autoridade que não pertence ao homem e colocando palavras na boca de Deus.
Uma coisa é dizer: "A Bíblia ensina que Deus é soberano." Outra coisa completamente diferente é dizer: "Deus me revelou que vai fazer determinada coisa na sua vida." A primeira afirmação está fundamentada naquilo que Deus já revelou, enquanto a segunda afirmação exige uma revelação específica. Se Deus não revelou, o homem não pode falar como se Deus tivesse revelado.
"Porém o profeta que presumir de falar alguma palavra em meu nome, que eu lhe não mandei falar [...] esse profeta será morto."
(Deuteronômio 18:20)
O problema, portanto, não é simplesmente interpretar um texto de maneira errada. É dizer "Deus disse" quando Deus não disse. Quando alguém afirma "Deus está dizendo para você", "Deus mandou eu te dizer" ou "Deus revelou que sua vitória está chegando", não devemos receber essas palavras automaticamente como vindas do Senhor. Precisamos examinar aquilo pela Escritura.
Quem fala em nome de Deus precisa falar aquilo que Deus realmente revelou, e não aquilo que ele gostaria que Deus tivesse dito.
Esse é justamente o perigo. Muitas vezes a Bíblia não é negada diretamente, ela é usada de maneira errada. Pegam um texto verdadeiro, retiram do contexto, atribuem outro significado e depois dizem: "Foi Deus quem falou." Mas o fato de um versículo ou uma passagem estar na Bíblia não significa que qualquer interpretação feita sobre ele seja Palavra de Deus. Um texto verdadeiro pode ser usado para sustentar uma mentira.
"Então, o diabo o levou à Cidade Santa, colocou-o sobre o pináculo do templo e lhe disse: Se és Filho de Deus, atira-te abaixo, porque está escrito..."
(Mateus 4:5-6)
O próprio Satanás citou a Escritura, mas Jesus respondeu:
"Também está escrito: Não tentarás o Senhor, teu Deus."
(Mateus 4:7)
Isso mostra que simplesmente ouvir alguém citar a Bíblia não prova que aquilo seja uma mensagem de Deus. Precisamos analisar o que a pessoa está fazendo com o texto. Ela está explicando aquilo que Deus revelou ou utilizando a Bíblia para criar uma mensagem que Deus nunca revelou? Está conduzindo as pessoas para Cristo ou criando dependência das próprias "revelações"? Está ensinando a confiar na Palavra ou fazendo as pessoas dependerem da próxima profecia?
Existe uma diferença enorme entre pregar a Palavra e usar a Palavra para produzir uma suposta mensagem pessoal de Deus. Quando alguém utiliza passagens isoladas para anunciar cura, emprego, prosperidade, vitória, livramento ou qualquer outro acontecimento específico, colocando tudo isso na boca de Deus, precisamos tratar isso com muita seriedade. Não podemos transformar o desejo de alguém em uma promessa de Deus.
Jesus perguntou:
"Pode, porventura, um cego guiar a outro cego? Não cairão ambos no barranco?"
(Lucas 6:39)
Uma pessoa pode ocupar uma posição de liderança e continuar espiritualmente cega. Pode falar com muita convicção, conhecer muitas palavras religiosas, emocionar pessoas, reunir multidões e ainda assim não compreender o evangelho. Convicção não transforma erro em verdade. Por isso, não podemos avaliar uma liderança apenas pelo tamanho da igreja, pela quantidade de pessoas, pelos testemunhos, pela intensidade das reuniões ou pelas manifestações.
E aqui aparece uma pergunta que muitas pessoas fazem quando começam a questionar uma denominação: "Mas você está dizendo que todas aquelas pessoas estão enganadas? Então milhões de pessoas estão erradas e só você está certo?" A resposta é que a quantidade de pessoas nunca foi o critério bíblico para determinar a verdade. Mesmo que uma denominação tivesse milhões de pessoas, seus cultos fossem acompanhados por milhares de manifestações e seus líderes fossem considerados os maiores homens de Deus da terra, nada disso teria autoridade para transformar uma mentira em verdade.
"Porque estreita é a porta, e apertado, o caminho que conduz para a vida, e são poucos os que acertam com ela."
(Mateus 7:14)
Jesus nunca ensinou que a verdade seria determinada pelo tamanho da multidão. Paulo estabelece um princípio ainda mais forte: nem mesmo um anjo vindo do céu teria autoridade para alterar o evangelho revelado nas Escrituras.
"Mas, ainda que nós ou mesmo um anjo vindo do céu vos pregue evangelho que vá além do que vos temos pregado, seja anátema."
(Gálatas 1:8)
Portanto, não importa se são dez pessoas ou dez milhões. Não importa o tamanho da denominação, a fama do pregador ou a quantidade de manifestações. Se a mensagem for diferente do evangelho revelado nas Escrituras, ela deve ser rejeitada.
Esse princípio precisa ser levado até suas últimas consequências. Muitas vezes, quando alguém começa a questionar um sistema religioso, ouve: "Mas como pode estar todo mundo errado? Como milhões de pessoas podem estar enganadas?" O argumento parece forte porque confunde quantidade com verdade. Mas a verdade não é determinada por votação, popularidade, tradição ou número de seguidores.
A própria história bíblica mostra isso. No tempo de Noé, a maioria estava fora da arca. Israel muitas vezes seguiu a maioria para a idolatria. Os profetas de Baal eram numerosos, enquanto Elias estava praticamente sozinho diante deles. E, no ministério de Cristo, uma multidão chegou a gritar:
"Crucifica-o! Crucifica-o!"
(Lucas 23:21)
A multidão estava errada. O fato de muitas pessoas acreditarem em alguma coisa não transforma aquilo em verdade. Da mesma maneira, o fato de uma doutrina ser praticada durante séculos não significa que ela seja bíblica. A antiguidade pode provar que uma prática é antiga, mas não que seja verdadeira.
Por isso, não perguntamos quantos milagres aconteceram, quantas pessoas tiveram experiências, há quantos anos uma organização existe ou se um líder parece um homem de Deus. Perguntamos qual evangelho está sendo anunciado, se essa mensagem preserva a suficiência de Cristo, se essa organização está submetida à autoridade das Escrituras e se aquilo que o líder ensina pode ser demonstrado pela Palavra.
A verdade não se torna verdadeira porque uma multidão acredita nela, assim como o erro não se transforma em verdade porque milhões de pessoas o praticam.
Esse é justamente o problema de muitas seitas e sistemas religiosos. Elas não necessariamente começam negando a Bíblia. Muitas vezes começam dizendo que acreditam nela, mas depois acrescentam uma revelação complementar, uma interpretação exclusiva, uma autoridade superior, uma tradição obrigatória ou uma suposta mensagem que somente aquele grupo possui. Em outros casos, afirmam que a Bíblia precisa ser corrigida ou completada por aquilo que seu líder recebeu, ou ensinam, explícita ou implicitamente, que somente dentro daquela organização existe salvação ou verdade.
Isso cria uma estrutura em que a pessoa deixa de confiar somente em Cristo e passa a confiar também na instituição, no líder, no rito, na revelação particular ou na marca distintiva daquele grupo. Cristo deixa de ser suficiente, a Escritura deixa de ser suficiente e a cruz passa a precisar de alguma coisa acrescentada pelo sistema religioso.
Paulo apresenta uma advertência justamente contra esse tipo de distorção:
"Se, na verdade, vindo alguém, prega outro Jesus que não temos pregado, ou se aceitais espírito diferente que não tendes recebido, ou evangelho diferente que não tendes abraçado, a esse, de boa mente, o tolerais."
(2 Coríntios 11:4)
Por isso, a pergunta nunca deve ser "Quantas pessoas acreditam nisso?", mas "Isso é verdadeiro segundo a Palavra de Deus?" Não perguntamos quantos milagres aconteceram, quantas pessoas tiveram experiências, há quantos anos uma organização existe ou se um líder parece um homem de Deus, mas qual evangelho está sendo anunciado, se essa mensagem preserva a suficiência de Cristo, se essa organização está submetida à autoridade das Escrituras e se aquilo que o líder ensina pode ser demonstrado pela Palavra.
A verdade não se torna verdadeira porque uma multidão acredita nela, assim como o erro não se transforma em verdade porque milhões de pessoas o praticam. A própria história bíblica mostra que multidões podem estar erradas. Portanto, quando uma organização afirma possuir uma verdade exclusiva, a pergunta não deve ser "quantas pessoas estão dentro dela?", mas "o que ela ensina pode ser demonstrado pela Escritura?"
Sim, e aqui precisamos manter uma distinção importante. Não precisamos afirmar que conhecemos perfeitamente cada experiência individual que tivemos, porque não conhecemos o coração das pessoas nem tudo aquilo que Deus, em sua providência, pode ter feito na vida de alguém. Deus é soberano e pode alcançar um pecador até mesmo no meio de um ambiente profundamente errado.
Deus pode usar uma Bíblia que alguém leu naquele lugar, uma conversa, uma música, uma dificuldade, uma lembrança, uma pregação específica ou até mesmo uma experiência que, naquele momento, a pessoa interpretou de uma maneira e que depois, à luz da Escritura, passou a compreender de outra forma. O fato de Deus usar alguma circunstância não significa que ele esteja aprovando tudo aquilo que existe naquele ambiente.
Uma coisa é Deus agir soberanamente na vida de uma pessoa. Outra completamente diferente é afirmar que Deus aprova o sistema religioso no qual aquela pessoa está inserida. Deus pode salvar alguém dentro de um ambiente profundamente equivocado sem, por isso, validar aquele ambiente. A soberania de Deus não transforma uma igreja falsa em igreja verdadeira, nem uma doutrina errada em doutrina correta.
E existe algo ainda mais importante: a soberania de Deus não é uma justificativa para permanecermos voluntariamente onde o evangelho é distorcido. Se Deus está conduzindo uma pessoa à verdade, ele pode, em sua providência, começar iluminando pouco a pouco, levando-a a examinar as Escrituras, perceber os erros, abandonar aquilo que contradiz a Palavra e buscar uma comunidade verdadeiramente bíblica e saudável.
"Porque Deus, que disse: Das trevas resplandecerá a luz, ele mesmo resplandeceu em nosso coração, para iluminação do conhecimento da glória de Deus, na face de Cristo."
(2 Coríntios 4:6)
O fato de Deus estar alcançando uma pessoa naquele lugar não significa que devemos permanecer naquele lugar. Deus pode nos alcançar no meio do erro, mas não nos chama a fazer do erro a nossa morada. Sua soberania não transforma uma doutrina falsa em verdadeira nem uma igreja equivocada em saudável. À medida que Deus nos ilumina pela sua Palavra, ele nos conduz ao conhecimento de Cristo, ao discernimento da verdade e ao abandono daquilo que contradiz as Escrituras.
O fato de Deus salvar pessoas dentro de um ambiente errado não é uma justificativa para permanecermos ali. A providência de Deus não nos acomoda no erro, ela nos conduz à verdade.
Não. Essa conclusão confundiria duas coisas completamente diferentes: a soberania de Deus em salvar os seus e a aprovação de Deus sobre o ambiente em que essas pessoas se encontram. Deus não precisa de um ambiente perfeito para salvar alguém, mas isso não significa que devemos considerar saudável aquilo que contradiz a Escritura.
Quando Deus ilumina uma pessoa pela sua Palavra, ele não a conduz a uma confiança cada vez maior no sistema que a mantinha em erro. Ele a conduz à verdade. O Espírito Santo não trabalha para tornar o erro mais confortável, mas para iluminar a mente e levar o pecador ao conhecimento da verdade de Deus.
"Porque Deus, que disse: Das trevas resplandecerá a luz, ele mesmo resplandeceu em nosso coração, para iluminação do conhecimento da glória de Deus, na face de Cristo."
(2 Coríntios 4:6)
Por isso, não devemos pensar: "Se Deus pode salvar pessoas ali, então está tudo bem continuar ali." Não está. O fato de Deus agir pontualmente em pessoas apesar do erro existente em determinado ambiente não transforma esse ambiente em um lugar biblicamente saudável. A graça soberana de Deus não é uma autorização para permanecermos onde o evangelho é adulterado.
À medida que Deus nos ilumina, somos chamados a comparar aquilo que recebemos com as Escrituras, abandonar aquilo que contradiz a verdade e buscar comunhão com aqueles que permanecem debaixo da autoridade da Palavra. Deus pode nos alcançar no meio das trevas, mas sua obra em nós não tem como objetivo nos manter nas trevas.
A providência de Deus pode explicar por que fomos alcançados naquele lugar, mas não pode ser usada para justificar nossa permanência no erro.
Aqui precisamos tratar de dois medos frequentemente plantados em ambientes religiosos: "não questione o ungido" e "não blasfeme contra o Espírito Santo". Essas ideias podem criar um bloqueio, fazendo a pessoa acreditar que examinar um ensinamento, questionar uma manifestação ou dizer que determinada experiência não veio de Deus seria uma afronta ao Senhor. Mas a Bíblia não coloca nenhum homem acima da avaliação das Escrituras. Nenhum líder está acima da Palavra de Deus.
"Amados, não deis crédito a qualquer espírito; antes, provai os espíritos se procedem de Deus, porque muitos falsos profetas têm saído pelo mundo fora."
(1 João 4:1)
Os bereanos também examinaram aquilo que ouviram, mesmo tendo recebido a pregação apostólica. Nenhum homem possui imunidade diante da Palavra de Deus. Se até aquilo que Paulo pregava era examinado pelas Escrituras, nenhum líder pode exigir que suas palavras sejam aceitas sem exame.
"Ora, estes de Bereia eram mais nobres que os de Tessalônica; pois receberam a palavra com toda a avidez, examinando as Escrituras todos os dias para ver se as coisas eram, de fato, assim."
(Atos 17:11)
O segundo medo é pensar: "E se eu disser que isso não era Deus e estiver blasfemando contra o Espírito Santo?" Não estamos blasfemando contra o Espírito Santo quando abrimos a Bíblia e dizemos: "Isso não está de acordo com a Palavra." Pelo contrário, estamos fazendo aquilo que a própria Escritura ordena: submeter tudo ao padrão que Deus estabeleceu.
"À lei e ao testemunho! Se eles não falarem desta maneira, jamais verão a alva."
(Isaías 8:20)
Em Mateus 12, Jesus não estava condenando pessoas que sinceramente examinavam uma experiência à luz da Palavra, mas homens que, deliberadamente, atribuíam ao diabo uma obra que reconheciam como sendo de Deus. É completamente diferente de um cristão dizer: "Senhor, eu não quero ser enganado. Quero saber se isso está de acordo com a tua Palavra." Isso não é desprezo pelo Espírito Santo, é submissão à Palavra que o próprio Espírito Santo inspirou.
Quando alguém disser: "Eu sentia Deus naquele lugar", não precisamos responder com arrogância, como se soubéssemos exatamente o que aconteceu em cada experiência. Mas também não precisamos ter medo de analisar. Precisamos simplesmente colocar tudo debaixo da Palavra: rejeitamos o que contradiz a Escritura, acrescenta algo ao evangelho, tira a suficiência de Cristo, coloca o homem no centro, transforma obras humanas em fundamento da salvação, coloca palavras na boca de Deus que ele não revelou ou utiliza textos isolados para criar promessas que o texto não ensina.
Aquilo que não conseguimos identificar com certeza em uma experiência pessoal, simplesmente não precisamos transformar em doutrina. Talvez algumas coisas que vivemos tenham sido apenas emoções humanas. Algumas podem ter envolvido manipulação emocional. Outras podem ter sido interpretações equivocadas de acontecimentos comuns. E Deus, em sua providência, pode até ter usado determinadas circunstâncias para nos conduzir à verdade.
Não precisamos resolver cada detalhe do passado para descansar. O importante agora não é descobrir uma explicação sobrenatural para cada experiência que tivemos, mas avaliar tudo à luz daquilo que Deus revelou. Nossa experiência pode ser interpretada de maneira equivocada, mas a Palavra de Deus permanece verdadeira.
Por isso, não precisamos reconstruir o passado para encontrar segurança nele. Precisamos olhar para a Palavra e permanecer firmes naquilo que ela ensina. O que não podemos provar biblicamente não precisa se tornar uma certeza doutrinária. E aquilo que descobrimos estar em contradição com a Escritura precisa ser abandonado, mesmo que tenha sido uma experiência marcante, emocionalmente intensa ou vivida durante muitos anos.
Porque a nossa segurança não está em conseguir explicar cada arrepio, emoção ou experiência que tivemos no passado. Nossa segurança está em Cristo, e Cristo nos é revelado nas Escrituras.
"Porque ninguém pode lançar outro fundamento, além do que foi posto, o qual é Jesus Cristo."
(1 Coríntios 3:11)
Agora que começamos a enxergar o evangelho com mais clareza, precisamos trocar uma confiança baseada em experiências por uma confiança baseada na verdade. Não somos mais chamados a confiar naquilo que sentimos, nas manifestações ou nos homens, mas em Cristo e na sua Palavra. Nossa relação com Deus não depende de reproduzirmos emoções do passado, buscarmos arrepios, sensações, alaridos ou novas profecias para termos certeza de que ele está conosco.
Nossa segurança não está em uma experiência, mas em Cristo. Uma experiência pode ser mal interpretada. Uma emoção pode desaparecer. Uma manifestação pode ser enganosa. Um líder pode errar. Uma instituição pode ensinar falsamente. Mas Cristo permanece o mesmo, e sua Palavra permanece verdadeira.
"Eu sou o caminho, e a verdade, e a vida; ninguém vem ao Pai senão por mim."
(João 14:6)
Sola Scriptura significa que somente a Escritura é a regra infalível e suficiente para determinar aquilo que devemos crer e como devemos viver diante de Deus. Isso não significa que não possamos ouvir pessoas, estudar teologia, aprender com irmãos, consultar bons comentários ou reconhecer a importância da igreja. Significa que tudo isso precisa estar submetido à Palavra de Deus.
Nenhuma experiência, tradição, liderança ou suposta revelação possui autoridade para corrigir, completar ou contradizer aquilo que Deus já revelou nas Escrituras. Tudo precisa ser examinado pela Palavra. É ela que estabelece o padrão pelo qual avaliamos aquilo que ouvimos, aquilo que vemos e aquilo que sentimos.
"À lei e ao testemunho! Se eles não falarem desta maneira, jamais verão a alva."
(Isaías 8:20)
Por isso, não precisamos ter medo de examinar, questionar ou rejeitar aquilo que contradiz a Escritura. Podemos reconhecer quando algo não está na Bíblia, está fora do contexto, acrescenta ao evangelho, diminui Cristo, coloca palavras na boca de Deus ou ensina a confiar no homem. O verdadeiro cristão não precisa proteger uma doutrina da investigação bíblica. Se ela é verdadeira, ela suportará o exame das Escrituras.
"Julgai todas as coisas, retende o que é bom."
(1 Tessalonicenses 5:21)
Nossa fé, portanto, não está fundamentada em uma experiência que tivemos, em uma denominação, em um líder, em uma manifestação ou em uma profecia. Nossa fé está fundamentada na Palavra de Deus e em Cristo, que é o centro dessa Palavra.
"Porque ninguém pode lançar outro fundamento, além do que foi posto, o qual é Jesus Cristo."
(1 Coríntios 3:11)
É para isso que a Palavra está nos conduzindo: não de volta para as experiências, os homens ou as manifestações, mas de volta para Cristo. Não precisamos de uma nova experiência para completar aquilo que Deus já revelou, nem de uma nova profecia para acrescentar segurança àquilo que temos em Cristo.
A Escritura é suficiente para nos conduzir à verdade, e Cristo é suficiente para a nossa salvação.
"Eu sou o caminho, e a verdade, e a vida; ninguém vem ao Pai senão por mim."
(João 14:6)
Não precisamos viver presos ao passado, tentando descobrir o que houve em cada culto, cada manifestação, cada arrepio ou cada experiência que tivemos. Também não precisamos substituir uma dependência de experiências por uma dependência de novos líderes, novas revelações ou novas manifestações.
Precisamos aprender a viver pela verdade que Deus já revelou.
Se algo contradiz a Escritura, rejeitamos. Se algo acrescenta ao evangelho, rejeitamos. Se algo diminui a suficiência de Cristo, rejeitamos. Se alguém coloca palavras na boca de Deus que ele não revelou, rejeitamos. Se uma experiência não pode ser confirmada pela Palavra, não precisamos transformá-la em doutrina.
A nossa segurança não está em conseguir provar que cada experiência passada foi sobrenatural. A nossa segurança está em saber em quem cremos.
"Eu sei em quem tenho crido e estou certo de que ele é poderoso para guardar o meu depósito até aquele Dia."
(2 Timóteo 1:12)
Não precisamos voltar para aquilo que sentimos. Não precisamos voltar para aquilo que os homens disseram. Não precisamos voltar para as manifestações que um dia interpretamos como prova da presença de Deus.
Precisamos voltar para aquilo que Deus realmente revelou.
E aquilo que a Palavra nos revela não é uma coleção de experiências, sinais ou homens extraordinários. Ela nos conduz a Cristo.
"Eu sou o caminho, e a verdade, e a vida; ninguém vem ao Pai senão por mim."
(João 14:6)
SOLA SCRIPTURA