Estudos Sistemáticos
IGREJA E VIDA CRISTÃ
IGREJA E VIDA CRISTÃ
Vivemos em uma sociedade em que as decisões políticas fazem parte da vida de todos nós. Governos criam leis, administram recursos e tomam decisões que podem afetar a família, a educação, a segurança, a liberdade e muitas outras áreas da nossa vida. Por isso, o cristão não deve deixar sua fé de lado quando exerce sua cidadania.
Se a Palavra de Deus deve orientar toda a nossa vida, ela também deve orientar nossa consciência quando precisamos tomar decisões como cidadãos. Isso não significa transformar a igreja em palanque ou fazer campanha para candidato ou partido. A decisão do voto é pessoal, mas deve ser tomada com responsabilidade diante de Deus e à luz das Escrituras.
A proposta desta reflexão é simples: ajudar o cristão a pensar biblicamente antes de votar. Afinal, o cristão continua sendo cristão também quando está diante da urna.
E talvez alguém pergunte: “Então, em quem eu devo votar?”
É justamente aqui que precisamos entender uma coisa importante: a Bíblia não apresenta os candidatos das nossas eleições, mas apresenta princípios fundamentais e inegociáveis pelos quais nossa consciência deve ser orientada.
Portanto, esta mensagem não vai indicar um candidato ou partido, mas mostrará os princípios e critérios que os cristãos sempre devem seguir para analisar as questões envolvidas no processo eleitoral à luz da Palavra de Deus.
E existe outra razão para não citarmos nomes ou partidos. Este estudo não foi elaborado para uma eleição específica, mas para a glória do SENHOR e para servir ao cristão em qualquer eleição e em todos os tempos. Candidatos mudam. Partidos mudam. Propostas mudam. Os cenários políticos mudam. Mas Deus não muda, e a sua Palavra permanece para sempre.
Por isso, o nosso fundamento não pode estar naquilo que é passageiro, mas naquilo que permanece. Não queremos ensinar o cristão a votar em determinada pessoa, mas a pensar e decidir de maneira bíblica diante de qualquer eleição.
Repetindo: a finalidade desta mensagem não é controlar o voto de ninguém. É lembrar que o cristão sempre deve pensar, examinar e decidir com sua consciência cativa à Palavra de Deus.
Assim, não podemos fechar a Bíblia para abrir a urna. Devemos votar com a Bíblia aberta.
A fé cristã não fica limitada ao culto, à oração ou à leitura da Bíblia. Cristo é Senhor de toda a nossa vida. Por isso, nossos valores, nossas decisões e nossa maneira de agir devem ser orientados pela Palavra de Deus.
Se buscamos orientação bíblica para nossa família, nosso trabalho, nossos relacionamentos e nossas escolhas diárias, também precisamos levar essa consciência para o exercício da cidadania.
Isso não significa que a Bíblia apresente candidatos, partidos ou programas eleitorais modernos. Ela não apresenta. Também não significa que exista um candidato perfeito ou um partido que represente completamente os valores do Reino de Deus.
A questão é que a Bíblia nos dá princípios inegociáveis, e cabe ao cristão estudar, comparar e discernir sempre à luz das Escrituras.
Por isso, a pergunta não deve ser apenas:
“Em quem eu gosto de votar?”.
Como cristãos, precisamos sempre perguntar:
“Quais pautas essa pessoa e seu partido defendem?”
“Quais são suas propostas?”
“Que valores estão por trás dessas propostas?”
“Como essas pautas se relacionam com os princípios bíblicos inegociáveis revelados na Palavra de Deus?”
É a partir dessas perguntas que começamos a exercer uma consciência cristã.
Existem assuntos políticos que envolvem questões morais. Por isso, o cristão sempre deve prestar atenção quando uma proposta entra em conflito com um princípio claramente ensinado nas Escrituras.
Isso não significa que toda questão política tenha uma resposta simples encontrada em um único versículo. Significa que sempre devemos levar os princípios bíblicos para dentro da nossa análise dessas propostas políticas.
A Bíblia não apresenta todos os programas políticos modernos. Por isso, o correto é identificar o princípio bíblico envolvido e depois perguntar se determinada proposta está de acordo com esse princípio ou entra em conflito com ele.
Quando uma pauta entra claramente em oposição a um princípio moral fundamentado nas Escrituras, o cristão, biblicamente, não deve apoiá-la, pois sua consciência deve inegociavelmente estar cativa à Palavra do Senhor.
Vejamos alguns exemplos de pautas políticas e em quais princípios elas irão infalivelmente tocar:
1. Aborto e proteção da vida humana
“Pois tu formaste o meu interior, tu me teceste no seio de minha mãe.”
(Salmos 139:13)
A Bíblia apresenta a vida humana como obra de Deus e, portanto, digna de proteção. No caso do aborto, a questão envolve diretamente a eliminação deliberada de uma vida humana inocente e toca o princípio bíblico de não assassinar.
Aqui estão envolvidos os princípios bíblicos da santidade da vida humana, dignidade da pessoa criada por Deus e proteção da vida inocente.
2. Casamento e família
“Por isso, deixa o homem pai e mãe e se une à sua mulher, tornando-se os dois uma só carne.”
(Gênesis 2:24)
A Bíblia apresenta o casamento como uma união estabelecida por Deus entre homem e mulher. Jesus reafirmou esse ensino em Mateus 19:4-6, mostrando que esse não era apenas um costume cultural, mas parte do propósito estabelecido por Deus desde a criação.
Essa pauta toca diretamente os princípios bíblicos sobre a definição do casamento, a estrutura da família e o propósito estabelecido por Deus para essa união.
3. Sexualidade e imoralidade sexual
“Pois esta é a vontade de Deus: a vossa santificação, que vos abstenhais da imoralidade sexual.”
(1 Tessalonicenses 4:3)
A Bíblia apresenta a sexualidade dentro de um padrão definido por Deus e condena a imoralidade sexual, incluindo relações entre pessoas do mesmo sexo. Essa pauta envolve, portanto, os princípios bíblicos de santidade e moralidade sexual.
Isso não significa se achar melhor ou menos pecador do que os outros. A questão é que não podemos normalizar ou chamar de correto aquilo que Deus chama de pecado.
4. Educação dos filhos e responsabilidade dos pais
“tu as inculcarás a teus filhos, e delas falarás assentado em tua casa, e andando pelo caminho, e ao deitar-te, e ao levantar-te.”
(Deuteronômio 6:7)
A Bíblia coloca sobre os pais uma responsabilidade importante na formação dos filhos. A educação não aparece nas Escrituras como uma responsabilidade completamente desvinculada da família, mas como uma área na qual os pais possuem deveres diante de Deus.
Essa pauta envolve os princípios bíblicos de responsabilidade dos pais, formação dos filhos e transmissão da verdade às próximas gerações.
5. Justiça, verdade, honestidade e combate à corrupção
“Não torcerás a justiça, não farás acepção de pessoas, nem tomarás suborno.”
(Deuteronômio 16:19)
A Bíblia exige justiça, verdade e honestidade daqueles que exercem autoridade e daqueles que vivem em sociedade. A corrupção, o suborno, a mentira, o favorecimento e a impunidade entram diretamente nessa discussão.
Essa pauta envolve os princípios bíblicos de justiça, verdade, honestidade, imparcialidade e rejeição do suborno e da corrupção.
6. Cuidado com o próximo e com os vulneráveis
“Amarás o teu próximo como a ti mesmo.”
(Mateus 22:39)
A Bíblia ordena que o cristão ame o próximo e se preocupe com aqueles que sofrem. Esse princípio aparece de diversas formas nas Escrituras, incluindo o cuidado com pessoas vulneráveis, necessitadas e injustiçadas.
Essa pauta envolve princípios bíblicos relacionados ao amor ao próximo, à justiça, à misericórdia e ao cuidado com os vulneráveis.
7. Segurança, autoridade e punição do crime
“Porque os magistrados não são para temor, quando se faz o bem, e sim quando se faz o mal. Queres tu não temer a autoridade? Faze o bem e terás louvor dela.”
(Romanos 13:3)
A Bíblia reconhece a autoridade civil como instrumento de Deus para promover a ordem e punir o mal. Por isso, segurança pública, combate ao crime, impunidade e aplicação das penas também precisam ser examinados à luz das Escrituras.
Essa pauta envolve os princípios bíblicos de autoridade civil, manutenção da ordem, punição do mal, justiça, proteção da sociedade e proteção dos inocentes.
Os exemplos acima são apenas algumas pautas políticas e mostram como elas inevitavelmente tocam em princípios bíblicos. A lista não é completa, porque existem muitas outras questões que também precisam ser examinadas à luz das Escrituras.
O ponto principal é que o cristão deve examinar as diferentes pautas e perguntar, em cada caso, quais princípios da Palavra de Deus estão envolvidos e se aquilo que está sendo defendido está de acordo com estes princípios bíblicos.
Sim. Não devemos abrir a Bíblia apenas para encontrar erros em quem não gostamos. O mesmo padrão de análise deve ser usado para todos.
Se um candidato de quem gostamos defende algo contrário às Escrituras, nossa simpatia não transforma aquilo em algo bíblico. Da mesma forma, se alguém de quem não gostamos apresenta uma posição coerente com determinado princípio bíblico, nossa antipatia não transforma aquilo em algo antibíblico.
A verdade não muda de acordo com a pessoa que a defende.
“julgai todas as coisas, retende o que é bom;”
(1 Tessalonicenses 5:21)
A Palavra de Deus precisa ser usada primeiro para examinar nossa própria consciência. Antes de perguntar apenas “o que há de errado com eles?”, precisamos perguntar: “Será que minhas próprias preferências estão de acordo com os princípios inegociáveis que Deus revelou em sua Palavra?”
Sim. A história de Israel, por exemplo, mostra que decisões relacionadas à liderança não eram tratadas como algo sem importância.
Em 1 Samuel 8, o povo pediu um rei para ser semelhante às outras nações. O problema naquele momento não era simplesmente a existência de um rei, porque a monarquia seria estabelecida por Deus na história de Israel. O problema estava na atitude daquele povo, que queria ser como as outras nações e rejeitava a maneira como Deus havia governado Israel.
Deus mandou Samuel advertir o povo. Samuel explicou o que aquele rei faria e mostrou que aquela escolha teria consequências. Mesmo depois da advertência, porém, o povo insistiu: “Porém o povo não quis ouvir a voz de Samuel; e disseram: Não, mas haverá sobre nós um rei” (1 Samuel 8:19).
O texto mostra que havia uma decisão humana real. O povo recebeu uma advertência, conheceu as consequências e ainda assim insistiu. Samuel chegou a dizer que, depois, eles clamariam por causa do rei que haviam escolhido. Isso nos ensina que reconhecer a soberania de Deus não significa dizer que nossas escolhas não importam.
O princípio que podemos observar nesse exemplo bíblico é que decisões relacionadas à liderança podem trazer consequências reais e que Deus não trata a responsabilidade humana como algo sem importância.
A Bíblia ensina que Deus governa todas as coisas, inclusive reis e governantes, mas também ensina que as pessoas são responsáveis por suas próprias decisões. Essas duas verdades aparecem juntas nas Escrituras.
Provérbios diz: “Como ribeiros de águas assim é o coração do rei na mão do Senhor; este, segundo o seu querer, o inclina” (Provérbios 21:1).
Daniel também declara: “É ele quem muda o tempo e as estações, remove reis e estabelece reis” (Daniel 2:21).
Deus é soberano sobre a história, mas essa verdade nunca foi dada para que o ser humano abandonasse sua responsabilidade.
Deus não apenas determina os fins. Ele também providencia os meios pelos quais realiza seus propósitos.
Nós não sabemos aquilo que Deus decretou secretamente para o futuro, mas sabemos aquilo que ele revelou sobre nossa responsabilidade no presente. Por isso, não podemos dizer: “Se Deus já decidiu tudo, então tanto faz o que eu fizer”.
Deus é soberano sobre o resultado, mas nós somos responsáveis pela decisão que tomamos. O fato de Deus estar no controle não transforma nossas escolhas em algo sem importância.
Porque nossa responsabilidade é agir de acordo com aquilo que Deus revelou.
A Escritura diz:
“Portanto, aquele que sabe que deve fazer o bem e não o faz nisso está pecando.”
(Tiago 4:17)
Não sabemos todas as consequências das nossas escolhas, nem como cada governo irá agir em todos os acontecimentos que virão. Mas sabemos que devemos agir com sabedoria, verdade e responsabilidade. O desconhecimento do futuro não nos dá licença para agir sem pensar.
É justamente por isso que a soberania de Deus deve produzir confiança, e não irresponsabilidade. Podemos descansar sabendo que Deus governa todas as coisas e, ao mesmo tempo, fazer aquilo que ele nos chamou a fazer com seriedade.
Não. Nunca podemos substituir o discernimento bíblico por rótulos que podem ser superficiais e/ou temporários. O simples fato de alguém usar o nome de cristão não significa que todas as suas posições estejam de acordo com a Bíblia.
Da mesma forma, alguém que não se apresenta como cristão não está necessariamente errado em tudo aquilo que defende.
Por isso, precisamos avaliar à luz da Bíblia tudo o que está sendo defendido, independentemente de quem esteja fazendo essa promessa.
Devemos examinar biblicamente propostas, posições, princípios, informações públicas e possíveis consequências. A pessoa pode usar palavras que agradam aos cristãos e, ainda assim, defender coisas que não estão de acordo com as Escrituras.
O padrão continua sendo a Palavra de Deus, e esse padrão precisa ser aplicado a todos. Não devemos entregar nossa consciência a uma pessoa apenas porque ela diz aquilo que gostaríamos de ouvir.
Não. O que a Bíblia nos dá são princípios norteadores para formar e guiar nossa consciência e nossos atos.
No caso eleitoral, aplicamos esses princípios e escolhemos livremente os candidatos, com responsabilidade cristã e à luz da Palavra de Deus.
Afinal, Jesus resumiu a Lei em dois grandes mandamentos: amar a Deus sobre todas as coisas e amar o próximo como a nós mesmos (Mateus 22:37-39). Esses dois mandamentos alcançam toda a nossa vida, inclusive a maneira como exercemos nossa cidadania.
Quando votamos, estamos tomando uma decisão que deve ser feita, em primeiro lugar, diante de Deus e debaixo da autoridade da sua Palavra, mas que também pode ter consequências para outras pessoas e para a sociedade.
Por isso, votar toca inevitavelmente nas duas tábuas da Lei: envolve nosso dever de amar a Deus sobre tudo e todos, submetendo nossa consciência à sua Palavra, e também nosso dever de amar o próximo, considerando que outras pessoas poderão ser afetadas pelas decisões dos governantes em quem votamos.
Por isso, precisamos ter cuidado para não colocar nossas preferências políticas acima dos princípios que Deus revelou. Nossa simpatia por um candidato não pode se tornar um motivo para relativizarmos aquilo que as Escrituras claramente ensinam. Da mesma forma, nossa antipatia por alguém não deve nos levar a rejeitar aquilo que, em determinada questão, esteja de acordo com um princípio bíblico.
Nesse sentido, o voto não é algo biblicamente irrelevante. Como toda decisão do cristão, devemos votar com a nossa consciência plenamente submetida à Palavra de Deus.
Embora a Bíblia não determine exatamente em quem devemos votar, ela nos fornece princípios que devem orientar a consciência com a qual votamos.
Não procuramos um candidato perfeito, porque sabemos que todos os seres humanos são pecadores. Nenhum político pode ocupar o lugar que pertence somente a Cristo.
A Bíblia nos lembra: “Não confieis em príncipes, nem nos filhos dos homens, em quem não há salvação” (Salmos 146:3).
Nossa esperança não está em homens, partidos ou governos. Nossa esperança está no Senhor.
Isso não significa que todas as escolhas sejam iguais em todos os aspectos. Significa que precisamos avaliar cada uma com atenção, discernimento e sem transformar qualquer pessoa em nosso salvador político.
Podemos reconhecer que determinada posição está de acordo com um princípio bíblico sem transformar quem a defende em nosso herói.
O cristão deve manter o equilíbrio.
Nenhum político merece nossa idolatria e nenhum político está acima da avaliação da Palavra de Deus. Podemos reconhecer aquilo que é correto e também apontar aquilo que é errado, sem abandonar a verdade por causa de nossas preferências.
Isso nos protege de um perigo muito comum: transformar política em idolatria. Nenhum político é salvador, nenhum partido é a Igreja e nenhum governo é o Reino de Deus. Cristo continua sendo o único Senhor e Salvador.
Devemos validar as informações antes de julgar biblicamente?
Sim. Infelizmente, muitas falsas notícias são propagadas, e nem tudo aquilo que circula como sendo uma proposta ou uma declaração de determinado candidato corresponde necessariamente à realidade.
Por isso, antes de avaliar se uma proposta está de acordo com os princípios bíblicos, devemos primeiro verificar se aquilo que está sendo atribuído ao candidato ou partido é realmente verdadeiro.
Somente depois de validar a informação é que podemos examiná-la à luz da Palavra de Deus. Não podemos fazer um julgamento bíblico correto sobre algo que nem sequer sabemos se é verdadeiro.
É possível ser cristão e, ainda assim, ser enganado por uma informação falsa. Por isso, confirmar antes de acreditar e compartilhar também faz parte da nossa responsabilidade.
Quanto mais conhecemos aquilo que realmente está sendo proposto, mais condições temos de comparar essas ideias com os princípios bíblicos. Assim, nossa decisão deixa de ser apenas uma reação emocional e passa a ser uma decisão consciente, responsável e fundamentada na verdade da Palavra de Deus.
Então, o que significa votar com a Bíblia aberta?
Significa reconhecer que nossa fé não fica do lado de fora quando exercemos nossa cidadania. A Bíblia não apresenta candidatos modernos, mas apresenta princípios que devem formar e orientar nossa consciência.
Por isso, não feche a Bíblia para abrir a urna. Abra a Bíblia para avaliar as propostas, examinar as posições e tomar sua decisão com temor e responsabilidade diante de Deus.
Não permita que idolatria, paixão, medo, identificação política ou preferência pessoal ocupem o lugar dos princípios revelados nas Escrituras. Nossa consciência pertence somente ao SENHOR.
Deus é soberano sobre a história, mas somos responsáveis pelas decisões que tomamos diante dele.
Vote conscientemente. Vote responsavelmente. Vote com a Bíblia aberta.
SOLI DEO GLORIA
Autor: Wagner Costa